Não acredito que haja vida após a morte, no sentindo literal. Não creio que meu ego individual ou que meu espírito seja único e importante o suficiente para despertar após o funeral, subindo ao paraíso, onde repousará entre nuvens rosadas. Se deixamos o corpo para trás, um imperativo, então não somos nada. Só que me torna diferente de Betty Grable é a pele, a mente, a época e o ambiente em que vivo. O que me impede de ser Thomas Mann é ter nascido nos Estados Unidos, e não em sua cidade natal, Lubeck; é ser mulher e ele homem; é o fato de ele ter herdado um conjunto de específico de glândulas e uma porção de tecido cerebral calibrados de maneira diferente dos meus. Ele é diferente, agora. Mas morrerá. Sinclair Lewis morreu: rosto enrugado olhava de esguelha, no retrado do jornal, e me lembrei de Carol, de Main Street, de Martin Arrowsmith, do doutor Gottlieb. Sinclair agora se decompõe, lentamente no túmulo. A centelha se apagou; a mão que escrevia, os nervos ópticos e auditivos que registravam, os tecidos cerebrais que recriavam – - – estão todos moles, flácidos, apodrecendo. Edna St. Vincent Millay está morta – e ela jamais removerá a terra sobre seu caixão para ver a chuva cheirando a maçã cair em filamentos prateados oblíquos, jamais. George Bernard Shaw está morto – e a sagacidade cessou, a luz se apagou. Os vegetarianos apodrecem mais depressa do que os carnívoros? Mas deixaram algo – e outras pessoas se sentirão parte do que sentiram. Mas nunca se pode recriar completamente, e eles estão mortos. A mente humana é tão limitada que só consegue construir um paraíso arbitrário – e normalmente os confortos físicos que lá colocam são, ingenuamente, dos tipos que podem ser concebidos conforme nossa percepção como seres humanos – e nada mais. Não: talvez eu acorde e me encontre queimando no inferno. Duvido muito. Creio que vou apagar. Negro é o sono; negro é um desmaio; e negra é a morte, sem luz, sem despertar. E como sangro por todos os indivíduos nos campos de batalha – que pensaram, “Eu sou eu, e sei de uma coisa, que se pode morrer sem ninguém saber”. Sei um pouco como deve ser – sentir que as águas se fecham por cima de você pela terceira vez, sentir os fuidos internos a escorrer, deixando-a vazia. Ter a mente rompida e seu conteúdo evaporado, desaparecido. Pois, com o registro de imagens que temos guardadas em nossas cabeças, tudo se vai e não é nada. Antoine St. Exupery certa vez pranteou um homem e os tesouros secretos guardados dentro dele. Eu adorava Exupery, vou lê-lo de novo, e ele falará comigo, sem estar morto ou desaparecido. Existe vida após a morte – a mente vivendo no papel e a carne vivendo na prole? Pode ser. Eu não sei.
Os diários de Sylvia Plath.