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"Eu dentro do templo chuto o tempo. Uma palavra me delineia VORAZ" Ana Cristina César

Imemorial Orfeu

 
Imagem: Orfeu | Odilon Redon, 1913.

Não é próprio da poesia escapar ao tempo, pelo menos a suas formas mais frágeis e instáveis? Sempre me espanta, entretanto, que em nossos dias possamos ler Homero, Virgílio, Lucrécio e muitos outros com proveito e até paixão, e sobretudo com o estranho sentimento de nos tornamos contemporâneos dos grandes heróis de seus poemas, que se chamam Ulisses, Enéias ou Orfeu. Daquelas épocas tão longínquas e daquelas línguas, consideradas mortas, vozes, poemas e cantos ainda chegam até nós, por vezes límpidas, por vezes obscuras, mas sempre portadoras, como o arco-íris, de encanto e alcance irisados. Ou como a luz de certas estrelas longínquas que continuamos a receber e a ver, mesmo que algumas delas talvez se tenham apagado há milhares de anos.
Assim percebemos a voz dos poetas de antigamente, apesar dos anos-luz que podem dela nos separar. E mesmo que, por vezes, alguns nomes encubram apenas uma lenda, uma silhueta espectral, o último eco de epopéias submersas ou de confrarias extintas. Assim foi com Orfeu, este nome mágico para mim, desde o dia em que, adolescente, o ouvi pela primeira vez num curso de mitologia grega, nome que inicialmente simbolizou a figura, a função e também o destino do poeta: encantar o homem e encantar o mundo, vencendo, pelas palavras e também pelo amor, as forças da morte.
É certo que, com os anos, esse príncipe dos poetas e da sombra assumiu outra figura, menos austera e, sobretudo, menos ritual, uma figura mais humana, mais próxima de nós. Mas jamais arrefecerão em mim o teor e o alcance de sua mensagem: o poeta não existe para aprovar o mundo, mas para melhorá-lo. Cantar quer dizer encantar, e nos encantar no sentido forte da palavra, ou seja, não nos adormecer, mas o contrário, nos despertar, nos acordar diante da única realidade que conta: a de completar o seu imaturo que somos. E, para isso, a música é a vida privilegiada, ao mesmo tempo fundadora e libertadora, a única que dá às palavras sua plenitude e sua aura. Orfeu, não esqueçamos, era músico. Um cantor, tanto quanto um encantador. A ele, portanto, a tarefa de nos revelar o mistério deste universo, revelar as belezas ocultas que nos cercam, e sobretudo, entregar-nos a chave que dá acesso ao Invisível e ao Inteligível. Por trás do nome Orfeu, ocultava-se, para mim – oculta-se ainda -, o poder que tem a linguagem de despertar, o poder que têm as imagens de encantar. 

Imemorial Orfeu, parte 1.

5 Comments


  1. Cássio Amaral
    Mar 09, 2008

    AAAAAAAAAAAAAAAUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUUU!!!!


  2. Patrícia
    Mar 09, 2008

    E Vinícius nos encantou, assim como suas palavras a mim, com seu Orfeu da Conceição deixando claro o que vc disse em seu texto.
    Bjos


  3. Ricardo Rayol
    Mar 10, 2008

    E já estou aqui te seguindo nessa voragem. A mitologia grega é demais. Mas em alguns casos é quase engraçado algumas das mitologias.

    Evoé, baco.


  4. Luís Henrique
    Mar 10, 2008

    Lindas e singelas palavras!… Quantos de nós ainda conseguem ser despertados em época tão achatada, sonolenta (ou sonâmbula, conforme o caso), entediada (ainda que com ares de grande agitação!) etc?…. Que vc possa despertar as almas (penadas ou não) que flutuam por aí qual espectrais, simulacros de pessoas vivas. Que a poesia, Orfeu, você e o resto da patota possam salvar aqueles “sonolentos” no meio do seu caminho!… (eu diria que alguns até babam!…. Mas isso é outra história!….)
    Beijos despertos


  5. Priscila Manhães
    Mar 11, 2008

    Ei, você por aqui? =)
    Beijo grande, Lu.

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