[Nadadora de noche, nadadora]
Nadadora de noche, nadadora
entre olas y tinieblas.
Brazos blancos hundiéndose, naciendo,
con un ritmo
regido por designios ignorados,
avanzas
contra la doble resistencia sorda
de oscuridad y mar, de mundo oscuro.
Al naufragar el día,
tú, pasajera
de travesías por abril y mayo,
te quisiste salvar, te estás salvando,
de la resignación, no de la suerte.
Se te rompen las alas, desbravadas,
hecho su asombro espuma,
arrepentidas ya de su milicia,
cuando tú les ofreces, como un pacto,
tu fuerte pecho virgen.
Se te rompen
las densas ondas anchas de la noche
contra ese afán de claridad que buscas,
brazada por brazada, y que levanta
un espumar altísimo en el cielo;
espumas de luceros; sí, de estrellas,
que te salpica el rostro
con un tumulto de constelaciones;
de mundos. Desafía
mares de siglos, siglos de tinieblas,
tu inocencia desnuda.
Y el rítmico ejercicio de tu cuerpo
soporta, empuja, salva
mucho más que tu carne. Así tu triunfo
tu fin será, y al cabo, traspasadas
el mar, la noche, las conformidades,
del otro lado ya del mundo negro,
en la playa del mundo que alborea,
morirás en la aurora que ganaste.
Pedro Salinas
…
[Nadadora à noite, nadadora]
Nadadora à noite, nadadora
entre ondas e trevas.
Braços brancos fundindo-se, nascendo,
com um ritmo
regido por desígnios ignorados,
avança
contra a dupla resistência surda
da escuridão e do mar, do mundo obscuro.
Ao naufragar o dia,
você, passageira
de travessias por abril e maio
quis se salvar, está se salvando
da resignação, não do destino.
Se lhe partem as asas, desbravadas,
seu assombro feito espuma,
arrependidas já de sua milícia,
quando lhes oferece, como um pacto
seu forte peito virgem
Se lhe quebram
as densas ondas vastas da noite
contra esse afã de claridade que busca,
braçada a braçada, e que levanta
um espumar altíssimo no céu;
espumas de astros; sim, de estrelas,
que lhe salpicam o rosto
com um tumulto de constelações;
de mundos. Desafia
mares de séculos, séculos de trevas,
sua inocência desnuda.
E o rítmico exercício do seu corpo
suporta, empurra, salva,
muito mais que a sua carne. Assim seu triunfo
será seu fim, e ao cabo, transpassados
o mar, a noite, os conformismos,
já do outro lado do mundo negro,
na praia do mundo que amanhece,
morrerá na aurora que ganhou.
Pedro Salinas
Tradução: Carlos Eduardo Ortolan
