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for: ‘April, 2008’

Nadadora à noite – Pedro Salinas

[Nadadora de noche, nadadora]

Nadadora de noche, nadadora
entre olas y tinieblas.
Brazos blancos hundiéndose, naciendo,
con un ritmo
regido por designios ignorados,
avanzas
contra la doble resistencia sorda
de oscuridad y mar, de mundo oscuro.
Al naufragar el día,
tú, pasajera
de travesías por abril y mayo,
te quisiste salvar, te estás salvando,
de la resignación, no de la suerte.
Se te rompen las alas, desbravadas,
hecho su asombro espuma,
arrepentidas ya de su milicia,
cuando tú les ofreces, como un pacto,
tu fuerte pecho virgen.
Se te rompen
las densas ondas anchas de la noche
contra ese afán de claridad que buscas,
brazada por brazada, y que levanta
un espumar altísimo en el cielo;
espumas de luceros; sí, de estrellas,
que te salpica el rostro
con un tumulto de constelaciones;
de mundos. Desafía
mares de siglos, siglos de tinieblas,
tu inocencia desnuda.
Y el rítmico ejercicio de tu cuerpo
soporta, empuja, salva
mucho más que tu carne. Así tu triunfo
tu fin será, y al cabo, traspasadas
el mar, la noche, las conformidades,
del otro lado ya del mundo negro,
en la playa del mundo que alborea,
morirás en la aurora que ganaste.

Pedro Salinas

[Nadadora à noite, nadadora]

Nadadora à noite, nadadora
entre ondas e trevas.
Braços brancos fundindo-se, nascendo,
com um ritmo
regido por desígnios ignorados,
avança
contra a dupla resistência surda
da escuridão e do mar, do mundo obscuro.
Ao naufragar o dia,
você, passageira
de travessias por abril e maio
quis se salvar, está se salvando
da resignação, não do destino.
Se lhe partem as asas, desbravadas,
seu assombro feito espuma,
arrependidas já de sua milícia,
quando lhes oferece, como um pacto
seu forte peito virgem
Se lhe quebram
as densas ondas vastas da noite
contra esse afã de claridade que busca,
braçada a braçada, e que levanta
um espumar altíssimo no céu;
espumas de astros; sim, de estrelas,
que lhe salpicam o rosto
com um tumulto de constelações;
de mundos. Desafia
mares de séculos, séculos de trevas,
sua inocência desnuda.
E o rítmico exercício do seu corpo
suporta, empurra, salva,
muito mais que a sua carne. Assim seu triunfo
será seu fim, e ao cabo, transpassados
o mar, a noite, os conformismos,
já do outro lado do mundo negro,
na praia do mundo que amanhece,
morrerá na aurora que ganhou.

Pedro Salinas
Tradução: Carlos Eduardo Ortolan

Convite

Hey, eu sei que está em cima da hora mas hoje tem showzinho no Saloon 79 – ambiente legal, música boa e muita gente bacana.

Hoje * 23/04 * Quarta-feira * 21 h * Saloon 79 * Pinheiro Guimarães, 79 – Botafogo.

Espero todos lá pra me dar um beijo.

Dois poemas de Carlos Eduardo Ortolan

Inquisição

Tenho tantas perguntas
sobre teu passado.
Inquirições infindas.
Os sonhos de criança,
as menores esperanças
que me contas
ao ajeitares a mecha de cabelo.
Melena que teima em embelezar-te
o rosto.

 

Conhecimento da dor

E tanto aprendi contigo.
De como teus gestos mais simples
mereciam cuidada atenção.
A vindima dos teus seios que me ocupava
enquanto o grito das aves pontilhava
a passagem umbrosa das noites.
Perdendo minha alma
no abismo final
do teu sexo.

Fascínio (1)

Ella Fitzgerald

Eu adoro essa foto de Duke Ellington e Benny Goodman absolutamente encantados em ouvir Ella Fitzgerald cantar. Pode-se notar que nesse momento eles a amavam.
(Clique na foto para vê-la maior)

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How Long Has This Been Going On – Ella Fitzgerald.

Poema-presente do dia

Adivinha

O que é impalpável
mas
pesa

O que é sem rosto
mas
fere

O que é invisível
mas
dói.

Orides Fontela

Sou menos quando não sou líquida

Alcoólicas
Hilda Hilst

I

É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d’água, bebida. A vida é líquida.

II

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d’água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

III

Alturas, tiras, subo-as, recorto-as
E pairamos as duas, eu e a Vida
No carmim da borrasca. Embriagadas
Mergulhamos nítidas num borraçal que coaxa.
Que estilosa galhofa. Que desempenados
Serafins. Nós duas nos vapores
Lobotômicas líricas, e a gaivagem
se transforma em galarim, e é translúcida
A lama e é extremoso o Nada.
Descasco o dementado cotidiano
E seu rito pastoso de parábolas.
Pacientes, canonisas, muito bem-educadas
Aguardamos o tépido poente, o copo, a casa.

Ah, o todo se dignifica quando a vida é líquida

IV

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

V

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

Georgios Seféris

Gosto das palavras de Seféris não apenas por ser notáveis, mas também proféticas no que se refere ao olhar que lançam sobre o que já se denominava de hermetismo da poesia moderna. Abaixo um texto de Seféris que eu traduzi. Texto de 1936 e que foi dedicado ao poeta T. S. Eliot:

“Antes de exprobrar os poetas pelas figuras incompreensíveis que nos apresentam, seria justo reconhecer-lhes o direito elementar de serem julgados, como os demais artistas, conforme as regras de sua arte, e em função das dificuldades que seu material apresenta para eles. É um direito que lhes assiste. Com freqüência ouvimos pessoas de cultura refinada confessarem não compreender alguns trechos de música que são muito simples para quem mantém nem que seja uma relação distante com a música. E se lhes dissermos que não os compreendem porque não entendem de música, eles não deixam de nos cumprimentar. Em contrapartida, se dissermos ao mesmo homem que ele não encontra sentido num poema – qual é o sentido de uma obra pictórica? – porque ele não entende de poesia, ele vê nisso um ataque pessoal: como se o tivéssemos chamado de analfabeto! Curiosamente, no ponto em que estão as coisas, pode-se dizer que o analfabetismo mais favorece do que impede a compreensão da poesia. Pois o primeiro mal-entendido vem do fato de quem os poemas são escritos com letras, como os guias turísticos e os anúncios farmacêuticos. Mais vale ter a oportunidade de atingir um ouvinte que não adquiriu o hábito de anestesiar o cérebro – como a grande massa dos semicultos – com a inesgotável matéria impressa que é absorvida diariamente pelo homem civilizado. Esse homem, na maior parte do tempo, pede à arte que lhe diga alguma coisa ou que se assemelhe a alguma coisa, enquanto a obra de arte é alguma coisa com a qual estabelecemos ou não uma relação.

Não quero dizer que a poesia não deva oferecer um sentido lógico. A única coisa que sustento é que a existência desse sentido muitas vezes não tem relação com o valor poético, que é mau sinal, ou um pífio sistema, abordar a poesia por seu sentido lógico e, finalmente e sobretudo, que a poesia provém da literatura oral.

Embora hoje em dia tenhamos adquirido o hábito de ler apenas com os olhos, é preciso encarar a poesia inicialmente como literatura oral, se quisermos compreendê-la. Pois esta é sua origem e sua família: o discurso oral, que em sua mais primitiva expressão remota à “batida selvagem do tantã na selva” de que fala Eliot.

Procurar nessa direção para encontrar a diferença entre poesia e prosa, não creio que seja perda de tempo. Um exemplo: a poesia utiliza o silêncio; ela é feita de palavra e de silêncio; ela é, de algum modo, um cinzelamento do silêncio. A prosa é uma arte silenciosa, desenvolve-se no silêncio: comparta pausas, mas não pode comportar silêncios.

Habitualmente, a prosa que convida à recitação, a prosa poética, é de má qualidade; a poesia que não exige ser dita em voz alta é de má qualidade. Entretanto, quantos dos que lêem poemas sentem necessidade de ouvi-los para compreendê-los? E quão poucos sabem ouvi-los!

Como ritmo ligado à palavra, a poesia se dirige ao homem inteiro, aos seus sentidos, aos seus sentimentos e à sua razão que molda os sentimentos. Ela reclama o homem em sua totalidade, aquele que se dá de modo imediato, sem se perguntar se está entendendo. Não compreendemos quando tememos não compreender. Esse amor é maior obstáculo à conexão poética. Quando não há temor, a compreensão chega sozinha e progressivamente, como sempre. A expressão segundo a qual “a poesia é uma atitude diante da vida” quer dizer, eu imagino, muito mais coisas, mas tem também esta significação: uma atitude, como quando dizemos referindo-nos a uma estátua, que ela tem atitude.

O poeta dá ao homem uma constituição para enfrentar a vida, e em última análise, é assim que eu sinto Ésquilo, quando desaparece, no fim da Oréstia, o cortejo das Eumênides:

Zeus, o que tudo vê
Com a Moira desceu
Lancem seus gritos agora, lancem seus gritos em resposta aos nossos cantos.

Mas nosso mundo está longe da cidade antiga ou das sociedades organizadas que ouviam o teatro de Shakespeare ou de Racine. É um mundo diluído, doente, anestesiado, onde os sentimentos se volatizam e perdem a realidade no cais das impressões; onde o homem tenta ordernar suas sensações não encontram em parte alguma, a não ser em si mesmo, terreno tão firma que lhe permita caminhar. O sentimento característico dos escritores atuais é o da não-realidade do indivíduo. As reações a esse sentimento podem ser observadas em temperamentos tão diversos quanto T. S. Eliot, André Malraux ou D. H. Lawrence. Ainda mais característica é a tendência ao monólogo – o monólogo interior. E entre falar sozinho e falar outra língua a distância não é grande.

Não gostaria de supor que, para mim, a poesia tenha se tornado um assunto individual. Tenho apenas uma observação a fazer: em lugar de dizer que a poesia chegou ao ponto de recusar a comunicação, é muito acertado filosofar sobre um mundo onde a comunicação se tornou tão difícil que sugere uma arte muito difícil.”

O mito bukowskiano de Apostrophes

Vale a pena assistir essa mesa redonda com Bukowski. Apesar de quase não ouvi-lo por causa do tradutor-mala. No final, Bulowski saiu quase carregado, ou de quatro e, o mais engraçado, ainda fez um carinho na careca de um participante. Em sua biografia diz que os franceses ficaram horrorizados com sua bebedeira. Mas o que eles esperavam? Reparem na mesinha e no suco de laranja muito suspeito.

Homens (2)

Se o diabo é a carne um homem.
Morrer por um homem é a última margem de amor um erro sem resgate.

Bienvenue, Kim.

O Kim é um canalha, é o novo blog de Douglas Kim.

 

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