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for: ‘July, 2008’

Disillusionment of Ten O'Clock – Wallace Stevens

Desilusão das Dez Horas

As casas são assombradas
Por camisolas brancas.
Nenhuma é verde,
Nem roxa com bainha verde,
Nem verde com bainha amarela,
Nem amarela com bainha azul.
Nenhuma delas é estranha,
Com meias de renda
E faixas de contas.
Ninguém vai sonhar
Com caramujos e orangotangos.
Só um ou outro marinheiro velho
Bêbado dorme de botas
E pega tigres
Em dia vermelho.

Wallace Stevens
Tradução: Paulo Henriques Britto

Disillusionment of Ten O’Clock

The houses are haunted
By white night-gowns.
None are green,
Or purple with green rings,
Or green with yellow rings,
Or yellow with blue rings.
None of them are strange,
With socks of lace
And beaded ceintures.
People are not going
To dream of baboons and periwinkles.
Only, here and there, an old sailor,
Drunk and asleep in his boots,
Catches Tigers
In red weather.

Wallace Stevens

O gatinho

Curiosity - Jon Bertelli

Havia um gatinho que todos os fins de tarde se aproximava do dono e lhe lambia os sapatos com a sua língua minúscula.

Vencendo uma certa timidez e uma certa precaução higiênica, o homem um dia decidiu descalçar-se para observar se o gato lhe lambia os pés como fazia aos sapatos.

Foi aí que o tigre, que se disfarçara de gato durante anos, decidiu que era o seu momento, e em vez de lamber, comeu.

Gonçalo M. Tavares, em O Senhor Brecht.

Três poemas e um desenho

Le chat - Priscila Manhães
Le chat, 2008 – Priscila Manhães.

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Invocação

O que peço à poesia
não que ela me baste
mas que me dê
a medida do possível,
a certeza do que basta.
(E a poesia me pede:
não o que ainda falta
mas o que excede
à palavra mais exata,
a plenitude sensível.)

Madrugada

Um gato preto no asfalto,
a poça de luz branca
de uma lâmpada de mercúrio.
Na rua deserta germina
uma incandescência fria
como a da lua sobre um pinheiro.

A borboleta

Ela passeia sozinha
sem rumo e sem rumor.
Aparece, embora ela seja
no incerto modo uma essência,
pois basta uma só borboleta
para que o ar se perfume
e a gente queira adejar
com ela nas adjacências.

Paulo Neves, em “viagem, espera”.

O bêbado e a equilibrista

Pri e Cris
Eu e Cris Polzonoff

Eu gosto de parceria na tradução, na música, aliás, em todas as coisas. Gosto da troca, as idéias fluem melhor, é mais rico o trabalho.

Além de guitarrista da banda, Cristiano Polzonoff é meu parceiro na música. Já compusemos três canções. Postarei aqui assim que registrarmos.

A música de hoje foi gravada durante um ensaio da banda.
Eu na voz e o Cris no violão:

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O Bêbado e A Equilibrista
João Bosco – Aldir Blanc

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos
A lua tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel
E nuvens lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco
O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil, meu Brasil
Que sonha com a volta do irmão do Henfil
Com tanta gente que partiu num rabo de foguete
Chora a nossa pátria mãe gentil
Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil
Mas sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente
A esperança dança na corda bamba de sombrinha
E em cada passo dessa linha pode se machucar
Azar, a esperança equilibrista
Sabe que o show de todo artista tem que continuar

Wallace Stevens

The Poem That Took The Place Of A Mountain

There it was, word for word,
The poem that took the place of a mountain.

He breathed its oxygen,
Even when the book lay turned in the dust of his table.

It reminded him how he had needed
A place to go to in his own direction,

How he had recomposed the pines,
Shifted the rocks and picked his way among clouds,

For the outlook that would be right,
Where he would be complete in an unexplained completion:

The exact rock where his inexactness
Would discover, at last, the view toward which they had edged,

Where he could lie and, gazing down at the sea,
Recognize his unique and solitary home.

O poema que tomou o lugar de uma montanha

Ali estava, palavra a palavra,
O poema que tomou o lugar de uma montanha.

Ele respirava seu oxigênio,
mesmo quando o livro repousava no pó de sua mesa.

Lembrava-lhe como ele necessitara
de um lugar para ir em sua própria direção,

Como ele recompusera os pinheiros
Deslocara as rochas e tomara seu caminho entre as nuvens

Para a perspectiva que seria correta,
Onde ele estaria completo em uma completude inexplicada:

A rocha exata onde sua inexatidão
Descobriria, ao fim, a vista para qual se voltaram

Onde ele poderia repousar e, contemplando o mar abaixo,
Reconhecer seu único e solitário lar.

Wallace Stevens
Tradução: Priscila Manhães

Monty Python

“The Philosophers Song” dos Monty Python.
Sim, para ocupar espaço, que falta tempo para escrever.

(Ouça a música)

Oh… Immanuel Kant was a real pissant
Who was very rarely stable

Heidegger, Heidegger was a boozy beggar
Who could think you under the table

David Hume could out-consume
Willhelm Friedrich Hegel

And Wittgenstein was a beery swine
Who was just as schloshed as Schlegel

There’s nothing Nietzsche couldn’t teach ya
‘Bout the raising of the wrist
Socrates himself was permanently pissed

John Stuart Mill of his own free will
On half a pint of shandy was particularly ill

Plato they say, could stick it away
Half a crate of whisky every day

Aristotle, Aristotle was a bugger for the bottle
Hobbes was fond of his dram

And Rene Descartes was a drunken fart
“I drink, therefore I am.”

Yes Socrates himself is particularly missed…
A lovely little thinker
But a bugger when he’s pissed.

Fábulas revisitadas (1)

Photobucket

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Le Lièvre et la Tortue

Ofegante e pouco antes de desabar no chão, a Lebre perguntou à Tartaruga:
- Como é possível? Você? Você ganhar a corrida?
E a tartaruga, olhando as unhas, sussurrou:
- Sinto muito, mas esqueci de lhe dizer que meu outro nome é Morte.

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