Archives
Monthly Archive
for: ‘November, 2008’

laocoonte, cobras e volúpia [leia-se: voragem]

Photobucket's Priscila Manhães

O homem das cavernas, em algum momento, viu-se enrolado como um Laocoonte em serpentes ensandecidas. A forma desta besta sinuosa não é no imaginário universal um dos emblemas mais antigos da volúpia?

Contador Borges, em “Sobre a santa nudez”.

[post recebido por e-mail. obrigada!]

Silêncio do meu umbigo

Photobucket's Priscila

Muitos posts, traduções, músicas, frases, versos, comentários, não dão em nada e, ainda assim, temos sempre de continuar.

Love me or leave me – Nina Simone

Nina Simone

Audio clip: Adobe Flash Player (version 9 or above) is required to play this audio clip. Download the latest version here. You also need to have JavaScript enabled in your browser.

Love me or leave me and let me be lonely
You won’t believe me but I love you only
I’d rather be lonely than happy with somebody else

Read More

Ernesto Sábato

Photobucket
(pintura de Sábato)

E, assim como o cão, ao sentir de repente mais próximo o mistério procurado, começa a cavar com fervor febril e quase alucinado (já alheio ao mundo exterior, alienado e demente, pensando e sentindo aquele único e poderoso mistério agora tão perto), assim ele acometia o corpo de Alejandra, tentava entrar nela até o fundo escuro do doloroso enigma: cavando, mordendo, penetrando freneticamente e tentando perceber cada vez mais distantes os fracos rumores da alma secreta e escondida daquela criatura tão sangrentamente próxima e tão desconsoladoramente distante. E, enquanto Martín a buscava, Alejandra talvez lutasse, em sua própria ilha, gritando palavras cifradas que para ele, Martín, eram ininteligíveis, e para ela, Alejandra, provavelmente inúteis, e para ambos, desesperadoras.
E depois, como num combate que deixa o campo coberto de cadáveres e não serviu para nada, ambos ficaram em silêncio.

Ernesto Sábato, em Sobre Heróis e Tumbas.

Exit Music

Brad Mehldau Trio.

Les uns et les autres

SONETO SENTIMENTAL
Paulo Henriques Britto

O que você chama de amor é isso?
Essa perda do parco tempo e espaço
que ainda te restam, este desperdício
de esperma? Esse viver sempre em compasso
de espera, sempre com o mesmo desfecho
que te faz dar o que te falta mais?
Que amor mais besta – uma espécie de peixe
palerma, que nada, nada e não sai
do lugar – é isso? Esse diz-que-diz
que não te deixa louco por um triz
e só te inspira mesmo ódio e horror?
Que te machuca tanto que no fim
não dá para perdoar? É isso? Sim,
é isso que você chama de amor.

Revista Coyote

Coyote
Capa da Revista Coyote N.º 18.

“Revista Coyote lança novo número, tendo como destaques um dossiê com a escritora Márcia Denser, ensaio de Michel Houllebecq, fotos de Iatã Cannabrava, a poesia de Joca Reiners Terron e traduções de Wyslawa Szymborska, Paul Éluard e Jack Kerouac

(…)

Coyote 18 resgata o talento e a lucidez furiosa da escritora Márcia Denser. Como escreve Ademir Assunção na apresentação do dossiê: “Prosa densa, labiríntica, poética [...]. A cada livro, seu texto (e, principalmente, o subtexto) vem funcionando como uma broca de prospecção, cavoucando cada vez mais fundo os conflitos humanos”.

A prosa brasileira está representada também na edição pelo cearense Pedro Salgueiro e pelo pernambucano Alberto Lins Caldas. Já a poesia contemporânea exibe sua riqueza e variedade nos poemas de Joca Reiners Terron, Beatriz Bajo, Celso Borges e Zhô Bertholini.

COYOTE é editada pelos poetas Ademir Assunção, Marcos Losnak e Rodrigo Garcia Lopes. Projeto gráfico de Marcos Losnak. Tem periodicidade trimestral e distribuição nacional (em livrarias) pela Editora Iluminuras.

Rembrandt – Rafael Alberti

Rembrandt
The Raising of Lazarus, 1631-32 – Rembrandt.
.

Rembrandt
Rafael Alberti

À luz lhe abriu, lhe deu entrada
nos mais fundos sótãos.
E ali uma misteriosa
voz lhe ordenou de súbito: Combate,
batalha ombro a ombro, fôlego a fôlego,
contra o gélido bocejo das sombras!

Um pulsar, um murmúrio,
um gemido crescente
de cor subterrânea que se expande,
invasor cego, no escuro.
Terras que vão arder,
negros que vão falar
com gemido frio, verdes tristes,
trêmulos de medo nos cantos.

Oh fúlgida espada repentina!
Noite rasgada, impunemente ferida,
noite vivificada pelo sangue
transpirante e sombrio das cavernas.
O mundo se ilumina solitário,
sem sorriso, em um ponto.
Lívida humanidade que surge, insone,
assombrada, fixada no abrir-se
e fechar-se de olhos de um relâmpago.

Sabe Deus o que passa em suas bacias,
seu deslumbrado, e assustado rosto
onde arranca o cabelo que já chora,
grita pugnando, sofre debatendo-se
entre as absorventes unhas frias
difusas no escuro.

Ó pintor embebido de espectros, Ó doído
pincel, Ó dolorida mão estranha
rompendo os tapumes das sombras,
nimbada para sempre
pela brecha de luz do infinito!

Tradução: Priscila Manhães

REMBRANDT
A la luz se le abrió, se le dio entrada / en los más hondos sótanos. / Y allí una misteriosa / voz le ordenó de súbito: ¡Combate, / batalla hombro con hombro, aliento con aliento, / contra el bostezo helado de las sombras! // Un latido, un murmullo, / un quejido creciente / de color subterráneo que se expande, / invasor ciego, a tientas. / Tierras que van a arder, / negros que van a hablar / con vagido helado, verdes tristes, / temblorosos de miedo en los rincones. // ¡Oh fúlgido espadazo repentino! / Noche rasgada, impunemente herida, / noche vivificada por la sangre / traspirante y umbrosa de las cuevas. / El mundo se ilumina solitario, / sin sonrisa, en un punto. / Lívida humanidad que surge, insomne, / asombrada, fijada en el abrirse / y cerrarse de ojos de un relámpago. // Sabe Dios lo que pasa por sus cuencas, / su deslumbrado, su asustado rostro / donde arranca el cabello que ya llora, / grita pugnando, sufre debatiéndose / entre las absorbentes uñas frías / difusas en lo oscuro. // ¡Oh pintor empapado de espectros, oh dolido / pincel, oh dolorida mano extraña / rompiendo los tabiques de las sombras, / nimbada para siempre / por la brecha de luz del infinito!

Categorias

Arquivos