Rembrandt – Rafael Alberti

The Raising of Lazarus, 1631-32 – Rembrandt.
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Rembrandt
Rafael Alberti
À luz lhe abriu, lhe deu entrada
nos mais fundos sótãos.
E ali uma misteriosa
voz lhe ordenou de súbito: Combate,
batalha ombro a ombro, fôlego a fôlego,
contra o gélido bocejo das sombras!
Um pulsar, um murmúrio,
um gemido crescente
de cor subterrânea que se expande,
invasor cego, no escuro.
Terras que vão arder,
negros que vão falar
com gemido frio, verdes tristes,
trêmulos de medo nos cantos.
Oh fúlgida espada repentina!
Noite rasgada, impunemente ferida,
noite vivificada pelo sangue
transpirante e sombrio das cavernas.
O mundo se ilumina solitário,
sem sorriso, em um ponto.
Lívida humanidade que surge, insone,
assombrada, fixada no abrir-se
e fechar-se de olhos de um relâmpago.
Sabe Deus o que passa em suas bacias,
seu deslumbrado, e assustado rosto
onde arranca o cabelo que já chora,
grita pugnando, sofre debatendo-se
entre as absorventes unhas frias
difusas no escuro.
Ó pintor embebido de espectros, Ó doído
pincel, Ó dolorida mão estranha
rompendo os tapumes das sombras,
nimbada para sempre
pela brecha de luz do infinito!
Tradução: Priscila Manhães
Ediney
Bela poesia, de cores, música e sedução