XXI
¿Qué es poesía?, dices mientras clavas
en mi pupila tu pupila azul.
¡Qué es poesía! ¿Y tú me lo preguntas?
Poesía… eres tú.
Gustavo Adolfo Bécquer
Rimas, p. 1871.

The Poet with the Birds, 1911 – Marc Chagall.
.
Poésie?
Cette chose sans nom
d’entre rire et sanglot
qui bouge en nous,
qu’il faut tirer de nous
et qui,
diamant de nos années
après le sommeil de bois mort,
constellera le blanc du papier.
.
Poesia?
Esta coisa sem nome
entre choro e riso
que se move em nós
que surge em nós
e que,
diamante de nossos anos
após o sono da floresta morta
constelará o branco do papel.
Michel Leiris
Tradução: Priscila Manhães Lerner
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PUTNAM COUNTY
Tom Waits
Acho que as coisas foram sempre sossegadas
Para os lados de Putnam County
Tímida e sonoleta por entre os perímetros da estrada de duas vias
Que se desenrolava como uma pista de dança de asfalto
Por onde todos os velhos passeavam de jardineiras e botas novas
Mentindo sobre as suas vidas e os lugares onde tinham ido
Sugando a Coca-Cola e cuspindo a jornada de trabalho
Até a lua não ser mais que um cão vadio
Errando sobre a linha da montanha.
E as tavernas cheias rebentando até o olho nu das duas da madruga
Com guitarras Stratocaster a tiracolo sobre as panças cheias de cerveja Burgermeister
E as pernas como palitos cruzados ao alto sobre a napa dos bancos do bar
A cera espalhada sobre o chão de linóleo
E caracóis morenos de cabeleireiro sobre olhos de Maybeline
Usando Prince Machiavelli, Estée Lauder
Doces perfumes.
Fui me acotovelando até o balcão com idéias confusas sobre bebidas misturadas
Enquanto Bubba e os mestres da estrada concentrados como numa sinuca
Espremiam a testa sobre o songbook de Hank Williams inteiro
E a velha registadora National cantava ao som de 57 dólares e 57 cents.
Até à hora de fechar mais um jogo de 8-ball
Enquanto a Berneice empilhava cadeiras sobre as mesas
E alguém aparecia a dizer: “Ei cara, há por aí quem tenha cabo de chupeta de 6 ou 12 volts?”
Todos os fodões da cidade emborcavam mais um copo
Enquanto batendo com os pés se gabavam de já terem pego mais rabos que um assento de privada
E os GMCs e os Fords Straight 8 tossiam e arquejavam
Esgueirando-se enquanto empurravam o cascalho sob os pára-choques
Para domar até casa a anaconda úmida e escorregadia de duas faixas
Com a chave de roda e a tralha toda chocalhando
Uma caixa de ferramentas e um selim.
É enfiar as mudanças, meter a primeira,
E a maldita geringonça cada vez pior,
Com a melodia de see ya later e das chaves de fendas nos carburadores
Fazendo conversa mole sobre dinheiro para emprestar e cavalos de apostas
Até amanhã, cumprimentos à patroa,
Negócios em curso e beijos de adeus,
O rádio cuspindo Charlie Rich
que, claro, canta o filho da puta
E te arrasta até casa, deixando a velha espelunca faiscar
Na noite americana quente, escura e narcótica
Debaixo de um céu como uma almofada de alfinetes,
E toca ao chegar em casa a tempo das torradas com mel,
Liga o Ford, o dinheiro do almoço está no escorredor de louças,
A descarga pinga, aperta a torneira,
O telefone toca, é a Mrs. Randal
Aonde estão as porras das minhas sandálias?
E os poodles de porcelana e os cisnes de vidro
saltam os olhos da prateleira dos bibelots
Com bilhetes de autorização da família para a visita de estudo dos garotos
Um par de Muckalucks abandonado sobre o carpete
E o iminente surgir das primeiras luzes espreitando por detrás de um toldo murcho no centro de Putnam
Que vão aparecer a qualquer instante
Como um táxi Velveeta de um âmbar rafeiro numa esquina chuvosa
buzinando debaixo de todas as janelas da cidade.
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Mario Benedetti (14/09/1920 – 17/05/2009)
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Leitura de Arte poética pelo próprio poeta.
Arte Poética
Que golpee y golpee
hasta que nadie
pueda ya hacerse el sordo
que golpee y golpee
hasta que el poeta
sepa
o por lo menos crea
que es a él a quien llaman.
.
Arte poética
Que golpeie e golpeie
até que ninguém
possa já se fazer de surdo
que golpeie e golpeie
até que o poeta
saiba
ou pelo menos creia
que é a ele a quem chamam.
Mario Benedetti
Trad.: Maria Teresa Almeida Pina
“Aquele que concebe alguma coisa de vivo deve mergulhar nas pronfundezas primitivas onde moram as forças da vida. E ao erguer-se à superfície, tem nos olhos um brilho de loucura, porque, nessas profundezas, a morte se acha com o rosto encostado as da vida jubilosa.”
Dionysos – Otto, Walter Friedrich.

Calypso and Odysseus – Erich Von Kugelgen.
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POEMA DE CALIPSO
…..Batalhas são de amor, também de sonho.
Ou são sonhos de amor ou, apenas em sonhos,
amor. Batalhas são
que balança com próprio corpo e com o seu
corpo.
…..Com suas mãos segura
seu sonho, constrói
seu amor, destrói
O que destrói se em suas mãos é sonho
E se sonha tão somente com suas mãos?
Jorge Urrutia
Trad. Priscila Manhães Lerner
Algumas jóias na relva. Alguns diamantes nas trevas.
Mas a borboleta que acabou de desabrochar esta noite
nos anuncia o dia, trêmulo no bico da aurora.
A poesia é o pedal de uma bicicleta rutilante. Nela
todos crescem. Os caminhos são brancos. As
flores falam. Minúsculas meninas surgem a
todo momento de suas pétalas. Esta excursão
não tem fim.
Instante suspenso como o brilho de um florim
exatamente antes de cair. E que desaparece exatamente depois
da queda, por sorte pousam nos ramos nus,
fica uma penugem rosa como uma libação do vento.
Meus passos ressoam no feltro estendido da minha sombra.
Saúdo teu eco, esperança de minhas montanhas.
Um botão na luz, uma tarântula na escuridão,
exatamente entre eles o grito lamentoso da noite que cai.
Toma minhas palavras e dá-me tuas mãos.
Priscila Manhães Lerner
Gosto é de deixar o corpo dominar o espírito.
Tears from our eyes
Start out suddenly
Until wiped away
By the gentle whisper
Of three words only.
And how should we stifle
Grief and jealousy
That would jerk us apart
Were it not for an oracle
Of three words only?
Three words only,
Full seven years waiting
With prolonged cruelty
Night by night endured
For three words only.
Sweetheart, I love you
Here in the world’s eye
And always shall do
With a perfect faith
In three words only.
Let us boast ourselves
Still to be poets
Whose power and whose faith
Hang at this tall altar
Of three words only.