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for: ‘June, 2009’

A semana começa assim…

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… com preguicinha.
– Na foto minha gatinha Miúda tirando uma soneca.

LUDWIG VAN BEETHOVEN

Piano Concerto No 2 – Berlin Philharmoniker, regida por Claudio Abbado; solista: Mikhail Pletnev.

Eros V

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Venere e Amore spiati da un satiro, 1528 – Corregio.

Em alta falesia — as mãos ao peito trespassado,
O mar glauco do olhar — proceloso e incauto.
A visão da queda — a quietude do deus alado;
Os pés acima — sobre-além — para o alto…

Bruno Prado

Eros IV

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Eros Centocelle

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Eros com o seu arco – Escultura romana do Museu Capitolini

Mais sobre Eros:

Eros - Greek Protogenos god of Procreation

Eros – Greek god of Love

Eros III

Um blog como este poderia deixar de comemorar o Dia dos Namorados, atrasado – I meant, com nada menos que Eros, o deus do desejo amoroso, da atração sexual, da atração sentimental; dedicando a todos os namorandinhos, inclusive o meu, my little beibe, mon petit rouge.

Quando astros e luminares se encontram, e às vezes se eclipsam no céu, é Eros. Quando a seiva sobe ao coração das árvores no início da primavera, é Eros Quando dois seres se encontram e se abraçam, por uma hora que seja, ou por toda vida, é sempre Eros. Como a existência seria triste sem ele. Pode-se, a rigor, não subir ao céu como fez Ícaro, mas não se pode viver plenamente sem Eros, o deus do desejo amoroso, da atração sexual, da atração sentimental.

Sobretudo, o imaginamos como um bebê rechonchudo, dotado de asas, arco, aljava, que atravessa com suas flechas os infelizes com quem ele cruza no caminho. Eis aí uma imagem convencional, edulcorada, que mostra o lento desgaste deste mito. Em sua melhor forma, Eros é um adolescente alado que é mostrado frequentemente nos vasos, voando sobre o fundo negro do céu, alheio à força da gravidade. Se Eros está sempre nos ares, é porque tem o poder de aliviar o homem daquilo que é pesado, de aliviar o coração do aimant e do ser amado – joguinho com a homofonia com a palavra francesa aimant, substantivo que significa ímã, e o adjetivo aimant , amoroso, terno, carinhoso. O aimant é, ao mesmo tempo, aquele que é atraído e o objeto que atrai. Se os poetas e filósofos dos tempos antigos tivessem conhecido as leis da atração universal descobertas por Newton, só poderiam ter visto nelas uma prova suplementar da existência e do poder de Eros. Porque Eros é a força que faz com que as coisas se movam, com que os seres se emocionem.

No entanto, nem todos os filósofos antigos adotaram essa visão positiva, até mesmo salutar, de Eros. No diálogo de Platão, O Banquete, dedicado ao amor, Sócrates evoca um personagem feminino dos mais inesperados, uma mulher de Mantinéia chamada Diotima, que sugere uma visão do amor – e de seus efeitos – inteiramente diferente da visão clássica.

Eros, ela ensina a Sócrates, é filho de Expediente e Pobreza, concebido durante as festas pelo nascimento de Afrodite. Ele não é, portanto, um deus, mas um gênio, uma criatura intermediária entre céu e terra, e entre os deuses e os homens. Um gênio sempre à procura do objeto amado, “que não tem nada de delicado ou agradável, como muitos pensam. Ao contrário, é sujo e brutal, um verdadeiro vagabundo errante, deitando aqui e ali no chão, ou dormindo na soleira das portas ou nas estradas. Em resumo, vem de sua mãe, Pobreza, o fato de viver em perpétua indigência. Por outro lado, graças à natureza do pai, ele procura sempre o que é belo e bom, é perseverante, teimoso, sempre pronto a tramar alguma coisa, interessado em saber e aprender, gostando de filosofar. Não é nem mortal nem imortal. Num mesmo dia, pode resplandecer na abundância, morrer de saciedade e renascer , graças ao que recebeu do pai. Tudo o que ele toca desaparece sem cessar, de tal modo que Eros está sempre entre a indigência e a opulência.”

Isso muda a imagem cupidínea dos poetas românticos. Mas alguns autores antigos – e notadamente os do hinos órficos – apresentam uma imagem totalmente diversa da natureza e dos poderes de Eros. No hino órfico que lhe é consagrado, é celebrado, incensado, como o “detentor das chaves do universo”, aquele que “tem nas mãos o timão do mundo”. É essa figura que adoto, saibam: em matéria de amor prefiro a imagem do grande timoneiro cósmico à do andarilho insone.

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Ao amor

Invoco o grande, o puro, o terno e grandioso Amor,
O deus alado, arqueiro, ágil, vivo e ardente
Que brinca com os deuses e com os mortais,
Deus múltiplo e astuto, detentor das chaves deste mundo,
Do céu etéreo, do mar, da terra, de todos os sopros
Nutrientes com que a deusa verdejante cumula os homens
E das chaves do vasto Tártaro e do Oceano ruidoso
Pois só tu tens nas mãos o timão de todas as coisas
Ó bem-aventurado, insufla nos mistas santos arrebatamentos
E afasta para bem longe deles os desejos aberrantes.

(Hino Órfico LVIII – A Eros)

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O POESIA, NEL LUCIDO VERSO…

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Clemente Rebora (1885 – 1957).

O POESIA, NEL LUCIDO VERSO…

O poesia, nel lucido verso
Che l’ansietà di primavera esalta
Che la vittoria dell’estate assalta
Che speranze nell’occhio del cielo divampa
Che tripudi sul cuor della terra conflagra,
O poesia, nel livido verso
Che sguazza fanghiglia d’autunno
Che spezza ghiaccioli d’inverno
Che schizza veleno nell’occhio del cielo
Che strizza ferite sul cuor della terra,
O poesia nel verso inviolabile
Tu stringi le forme che dentro
Malvive svanivan nel labile
Gesto vigliacco, nell’aria
Senza respiro, nel varco
Indefinito e deserto
Del sogno disperso,
Nell’orgia senza piacere
Dell’ebbra fantasia;
E mentre ti levi a tacere
Sulla cagnara di chi legge e scrive
Sulla malizia di chi lucra e svaria
Sulla tristezza di chi soffre e accieca,
Tu sei cagnara e malizia e tristezza,
Ma sei la fanfara
Che ritma il cammino,
Ma sei la letizia
Che incuora il vicino,
Ma sei la certezza
Del grande destino,
O poesia di sterco e di fiori,
Terror della vita, presenza di Dio,
O morta e rinata
Cittadina del mondo catenata!

Ó POESIA, NO LÚCIDO VERSO…

Ó poesia, no lúcido verso
Que a ansiedade da primavera exalta
Que a vitória do verão assalta
que esperanças no olho do céu incendeia
que regozijo no coração da terra conflagra,
Ó poesia, no lívido verso
Que lama de outono pisa
Que quebra estalactites de gelos de inverno
Que salpica veneno no olho do céu
Que comprime feridas no coração da terra,
Ó poesia no verso inviolável
Apertas as formas que dentro
Mal vivas esmorecem no efêmero
Gesto covarde, no ar
Sem respirar , no passo
Indefinido e deserto
Do sono disperso
Na orgia sem prazer
Da ébria fantasia
E enquanto levanta-te para permanecer quieta
Sobre a o alvoroço de quem lê e escreve
Sobre a malícia de quem lucra
Sobre a tristeza de quem sofre e cega,
Tu és o alvoroço e malícia e tristeza,
Mas és a fanfarra
Que ritma o caminho
Mas és a alegria
Que alenta o vizinho
Mas és a certeza
Do grande destino
Ó poesia de esterco e de flores,
Terror da vida, presença de Deus,
Ó morta e renascida
Encadeada cidadã do mundo!

Clemente Rebora
Tradução: Priscila Manhães Lerner

O ventre

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Não conhece a arte da navegação
que não tenha vogado no ventre
de uma mulher, remado nela
naufragado
e sobrevido em uma de suas praias.

Eros II

Há rusga em que Eros se fruste?
Eros, enreda-reses,
anoiteces à face flébil da núbil,
ocupas, transmarino,
o casebre campesino.
Imortal não há,
tampouco homem — ser-de-um-dia –
imune ao teu desvario.
 
Incriminas quem tem discrímen,
quando enublas o seu caminho.
Suscitas discordância consanguínea.
Mas hímeros — querer que cintila
entre os cílios belos da virgem –
triunfa,
voz que avulta em concílios que legislam.
Não há quem resista a Afrodite,
deusa que brinca.

Antígone, Sófocles.
Tradução de Trajano Vieira.

– Post recebido por e-mail. Muito obrigada.

Eros

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Jovem defendendo-se de Eros, 1880 – William-Adolphe Bouguereau.

Eros, invicto na batalha,
Eros, que a tua presa escravizas;
tu, que nas faces delicadas
da virgem estás à espreita
e vogas sobre o mar e pelas agrestes choupanas;
de ti nem o divino eterno se liberta
nem o efêmero humano; o que te possui desvaira.
Tu, que aos justos tornas injustos,
enlouqueces e levas à ruína;
tu, que também esta contenda
entre homens – pai e filho – armaste!
Mas triunfa fulgindo entre os cílios e úmido olhar da amável
noiva, como sob o comando das fortes
leis. Sem lutar brinca conosco a divina Afrodite.

Antígone, Sófocles.
Tradução de Guilherme de Almeida.

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