Archives
Monthly Archive
for: ‘June, 2009’

Dois poemas de Ana Cristina César

Photobucket

OLHO MUITO TEMPO O CORPO DE UM POEMA…

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas

NADA, ESTA ESPUMA

Por afrontamento do desejo
insisto na maldade de escrever
mas não sei se a deusa sobe à superfície
ou apenas me castiga com seus uivos.
Da amurada deste barco
quero tanto os seios da sereia.

Gérard de Nerval

El Desdichado

Je suis le ténébreux, – le veuf, – l’inconsolé,
Le prince d’Aquitaine à la tour abolie:
Ma seule étoile est morte, – et mon luth constellé
Porte le soleil noir de la Mélancolie.

Dans la nuit du tombeau, toi qui m’as consolé,
Rends-moi le Pausilippe et la mer d’Italie,
La fleur qui plaisait tant à mon cœur désolé
Et la treille où le pampre à la rose s’allie.

Suis-je Amour ou Phébus?… Lusignan ou Biron?
Mon front est rouge encor du baiser de la reine;
J’ai rêvé dans la grotte où nage la sirène…

Et j’ai deux fois vainqueur traversé l’Achéron:
Modulant tour à tour sur la lyre d’Orphée
Les soupirs de la sainte et les cris de la fée.

Eu sou o tenebroso, – o viúvo, – o inconsolado
Príncipe d’Aquitânia, em triste rebeldia:
É morta a minha estrêla, – e no meu constelado
Ataúde há o negror, sol da melancolia.
Na noite tumular, em que me hás consolado,
O pausílipo, a Itália, o mar, a onda bravia,
Dá-me outra vez, – e dá-me a flor do meu agrado
E a ramada em que a rosa ao pâmpano se alia…

Sou Byron? Lusignan? Febo? O Amor? Advinha!
As faces me esbraseia o beijo da rainha:
Cismo e sonho na gruta em que a sereia nada…

Duas vêzes o Aqueronte, – é o grande feito meu, -
Transpus a modular, nesta lira de Orfeu,
Os suspiros da santa e os clamores da fada…

Gérard de Nerval
Tradução de Manuel Bandeira

Page 3 of 3«123

Categorias

Arquivos