Uma árvore de nuvens cresce dentro da minha cabeça, um fruto azul, seco, de uma nostalgia inexplicada, não tenho passado, não tenho futuro, não tenho qualquer forma de tempo nos meus pés, folhas de gás pingam melancolia sobre a terra, uma árvore azul crescer dentro dos frutos gaseados, uma cabeça de árvore seca inexplicavelmente presente num futuro já passado, um deus, uma forma de deus, um açude onde morrem pela tarde gatos afogados em sacos de plástico, uma atuação de pessoas breves, uma performance, um dizer nas páginas brancas da poesia, uma poesia nas páginas amarelas dos lugares marcados, um eliot, um fumo, um deus que fuma sentado nas nuvens da minha cabeça, um deus que atua, um deus que lê nas páginas o branco das folhas amarelas, um deus que consegue dizer: pára, pára, não mais ande, não mais respire, pára de respirar, o teu coração que transpire a respiração das folhas secas, folhas secas coladas às páginas de livros velhos, com o peso branco do papel, dos rolos secos de papel, transtornados de branco e branco por todas as margens, por todos os galhos e galhofas de palavras, uma nuvem de livros, lírios e delírios, de desejos e promessas, de sussurros do divo, dos lábios do divino, rediviva na cabeça, nas espiras do azul, uma inexplicável asa de águas, que me encharca o abraço, me mina a brasa dos sonhos e abrasa a carne, o sangue lírio da carne nebulosa, de brumas alvas e rubras, das nuvens e fumaças, das difusas nuvens gaseadas dos galhos da minha árvore, um deus sentado entre os dedos, sentado nas nuvens da caneta, um deus equilibrista, equilibrando o seu pensamento na ponta da tampa da caneta, um deus lendário, sem cabeça, a lenda do deus sem cabeça, um deus sem cabeça que anda pelos telhados a espreitar-nos, nós que miamos como gatos arfando dentro de sacos de plástico atirados a um rio que já não existe, um rio de óleos e de lamas, um rio de pensamentos sem cabeça, um rio de memórias sem tempo, de tempo sem memória, um riacho sem chamas, os galhos na lama, a flor, um só vento, as pétalas, azuis-lazúli do tempo, um manto de relvas em rengas, ringues sem corpos, corpos sem lembrança, alfenas de anjos, só asas, sem crânios, no preamar, na preia-mar do deslize, sem céus senão lama, o frio da palavra contra o lete, que me invade ao meio, e me congela na pele da água, nas margens da cama, um sono, um sonho, um andar sorrateiro na noite da tarde, ao centro, na tarde da fala, lambendo a lembrança, lixando e andando, ao centro da beira, ao céu, ao parapeito, miados no olvido, sem sanha, miando na noite a algum deus, um deus que não canta…
Priscila Manhães e Bruno Prado




