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for: ‘July, 2009’

Canto I

Uma árvore de nuvens cresce dentro da minha cabeça, um fruto azul, seco, de uma nostalgia inexplicada, não tenho passado, não tenho futuro, não tenho qualquer forma de tempo nos meus pés, folhas de gás pingam melancolia sobre a terra, uma árvore azul crescer dentro dos frutos gaseados, uma cabeça de árvore seca inexplicavelmente presente num futuro já passado, um deus, uma forma de deus, um açude onde morrem pela tarde gatos afogados em sacos de plástico, uma atuação de pessoas breves, uma performance, um dizer nas páginas brancas da poesia, uma poesia nas páginas amarelas dos lugares marcados, um eliot, um fumo, um deus que fuma sentado nas nuvens da minha cabeça, um deus que atua, um deus que lê nas páginas o branco das folhas amarelas, um deus que consegue dizer: pára, pára, não mais ande, não mais respire, pára de respirar, o teu coração que transpire a respiração das folhas secas, folhas secas coladas às páginas de livros velhos, com o peso branco do papel, dos rolos secos de papel, transtornados de branco e branco por todas as margens, por todos os galhos e galhofas de palavras, uma nuvem de livros, lírios e delírios, de desejos e promessas, de sussurros do divo, dos lábios do divino, rediviva na cabeça, nas espiras do azul, uma inexplicável asa de águas, que me encharca o abraço, me mina a brasa dos sonhos e abrasa a carne, o sangue lírio da carne nebulosa, de brumas alvas e rubras, das nuvens e fumaças, das difusas nuvens gaseadas dos galhos da minha árvore, um deus sentado entre os dedos, sentado nas nuvens da caneta, um deus equilibrista, equilibrando o seu pensamento na ponta da tampa da caneta, um deus lendário, sem cabeça, a lenda do deus sem cabeça, um deus sem cabeça que anda pelos telhados a espreitar-nos, nós que miamos como gatos arfando dentro de sacos de plástico atirados a um rio que já não existe, um rio de óleos e de lamas, um rio de pensamentos sem cabeça, um rio de memórias sem tempo, de tempo sem memória, um riacho sem chamas, os galhos na lama, a flor, um só vento, as pétalas, azuis-lazúli do tempo, um manto de relvas em rengas, ringues sem corpos, corpos sem lembrança, alfenas de anjos, só asas, sem crânios, no preamar, na preia-mar do deslize, sem céus senão lama, o frio da palavra contra o lete, que me invade ao meio, e me congela na pele da água, nas margens da cama, um sono, um sonho, um andar sorrateiro na noite da tarde, ao centro, na tarde da fala, lambendo a lembrança, lixando e andando, ao centro da beira, ao céu, ao parapeito, miados no olvido, sem sanha, miando na noite a algum deus, um deus que não canta…

Priscila Manhães e Bruno Prado

A Si Mesmo – Leopardi

A SE STESSO (Canti, XXVIII)

Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, né di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia
La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.

A SI MESMO

Ora repousarás para sempre,
Meu exausto coração. Morreu o engano extremo
que eterno cri. Morreu. Bem sinto,
Em nós dos caros erros,
não só a esperança, o próprio desejo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Não valem coisa alguma
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargura e tédio
A vida, nada mais, e lama é o mundo.
Aquieta-te pois. Desespera
A vez derradeira. Ao nosso gênero o fado
Não brindou mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o bruto
Poder que, oculto, o dano comum impera,
E a infinita vanidade de tudo.

Giacomo Leopardi
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Um desenho

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E uma pintura: “Perpetuação dos segundos” está aqui.

Poesia do cotidiano

AN AFTERNOON

As he writes, without looking at the sea,
he feels the tip of his pen begin to tremble.
The tide is going out across the shingle.
But it isn’t that. No,
it’s because at that moment she chooses
to walk into the room without any clothes on.
Drowsy, not even sure where she is
for a moment. She waves the hair from her forehead.
Sits on the toilet with her eyes closed,
head down. Legs sprawled. He sees her
through the doorway. Maybe
she’s remembering what happened that morning.
For after a time, she opens one eye and looks at him.
And sweetly smiles.

CERTA TARDE

Assim como escreve, sem olhar o mar,
ele sente a ponta de sua caneta começar a tremer.
A corrente atravessa as telhas.
Mas não assim. Não,
porque neste instante ela prefere
perambular pelo quarto sem roupa.
Sonolento, não muito certo de onde ela esteja
por um momento. Ela ondula o cabelo da testa.
Sentada no toalete com os olhos fechados,
cabisbaixa e as pernas esticadas. Ele a observa
através da porta entreaberta. Talvez
esteja recordando o que acontecera pela manhã.
Pouco depois, ela abre um olho e o vê.
E sorri docemente.

Raymond Carver
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Ingerir beleza

If you want me fragile, I’ll be your flower, if you want me crawling I’ll be your maggot. Touch this skin, as smooth as satin. I’ve carved your name in it, I wrote you psalms, I was calm when I took a fountain pen and wrote all my truths around my veins. Veiled, like a bride, I watch over you.

The sun out of our behinds Cinza-chumbo foi embora, o céu se abre com um pouco de preguiça. Sonhei que vizinha que não conheço foi embora chorando, balançando sua lindíssima cabeleira negra de índia, sonhei que estava acertando a cara de uma pessoa que eu queria muito ter acertado a cara um dia, sonhei que o pêlo do Bruninho tinha brilhos de diamante. Aquela planta com folhas engraçados, gordinhas, parecendo dedos de criança levada floresceu, as florzinhas caem e Miúda come algumas. Eu comia flores, às vezes; minha mãe me chamava de louca. Não era muito gostoso, não, mas eu me sentia ingerindo beleza. Coisa de criança. Passei em frente aos canteiros de azaléia e morri de vontade de apanhar uma e enfiá-la inteira na boca. Ingerir beleza. À noite inspiro beleza, abro a janela e permaneço ali enquanto a brisa fria entra perfumada, perfumada.

André Breton

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Sur La Route de San Romano

La poésie se fait dans un lit comme l’amour
Ses draps défaits sont l’aurore des choses
La poésie se fait dans les bois

Elle a l’espace qu’il lui faut
Pas celui-ci mais l’autre que conditionnent

…..L’oeil du milan
…..La rosée sur une prêle
…..Le souvenir d’une bouteille de Traminer embuée sur un plateau d’argent
…..Une haute verge de tourmaline sur la mer
…..Et la route de l’aventure mentale
…..Qui monte à pic
…..Une halte elle s’embroussaille aussitôt

Cela ne se crie pas sur les toits
Il est inconvenant de laisser la porte ouverte
Ou d’appeler des témoins

…..Les bancs de poisson les haies de mésanges
…..Les rails à l’entrée d’une grande gare
…..Les reflets des deux rives
…..Les sillons dans le pain
…..Les bulles du ruisseau
…..Les jours du calendrier
…..Le millepertuis

L’acte d’amour et l’acte de poésie
Sont incompatibles
Avec la lecture du journal à haute voix

…..Le sens du rayon de soleil
…..La lueur bleue qui relie les coups de hache du bûcheron
…..Le fil du cerf-volant en forme de coeur ou de nasse
…..Le battement en mesure de la queue des castors
…..La diligence de l’éclair
…..Le jet des dragées du haut des vieilles marches
…..L’avalanche

La chambre aux prestiges
Non messieurs ce n’est pas la huitième Chambre
Ni les vapeurs de la chambrée un dimanche soir

…..Les figures de danse éxecutées en transparence au-dessus des mares
…..La délimitation contre un mur d’un corps de femme au lancer de poignards
…..Les volutes claires de la fumée
…..Les boucles de tes cheveux
…..La courbe de l’éponge des Philippines
…..Les lacets du serpent corail
…..L’entrée du lierre dans les ruines
…..Elle a tout le temps devant elle

L’étreinte poétique comme l’étreinte de chair
Tant qu’elle dure
Défend toute échappée sur la misère du monde.

No Caminho de São Romano

A poesia se faz em um leito como o amor
Seus lençóis revoltos são a aurora das coisas
A poesia se faz nos bosques

Ela tem o espaço de que necessita
Não é senão aquilo que condicionam

…..O olho do papagaio
…..O orvalho sobre uma cavalinha
…..A lembrança de uma garrafa de Traminer turva sobre uma bandeja de prata
…..Uma alta verga de turmalina no mar
…..E o caminho da aventura mental
…..Que ascende ao pico
…..Uma interrupção e se amoita em seguida

Não se grita sobre os telhados
Não é conveniente deixar a porta aberta
Ou conclamar testemunhas

…..Os cardumes de peixes as revoadas de chupins
…..As raízes à entrada de uma grande estação
…..Os reflexos de dois rios
…..Os veios do pão
…..As bolhas que rebentam no riacho
…..Os dias do calendário
…..As Ervas-de-São-João

O ato do amor e o ato de poesia
São incompatíveis
Com a leitura do jornal em voz alta

…..O sentido do raio do sol
…..A luz azul que desprende do golpe do machado do lenhador
…..A linha da pipa em forma de coração ou de armadilha
…..O batimento rítmico da calda dos castores
…..A velocidade do relâmpago
…..A chuva de granjeias do alto de velhas escadas
…..A avalanche

O quarto dos prestígios
Não senhores não é oitava câmara
Nem os vapores do quarto cheio um domingo à noite

As figuras de dança realizadas em transparência sobre as poças.
A delimitação contra um muro de um corpo de uma mulher ao lança facas

…..As volutas pálidas do fumo
…..Os caracóis de teu cabelo
…..A curva da esponja das Filipinas
…..Os laços da serpente coral
…..A presença da hera entre as ruínas
…..A poesia tem todo o tempo adiante

O abraço poético como o abraço carnal
Enquanto dura
Proíbe toda fuga sobre a miséria do mundo.

André Breton
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Visionário, em grego é alafraïskiotos. Eu sei, não é fácil pronunciar e nem mesmo escrever, mas eu gosto dessa palavra. É da mesma família poético-fonética de adyton e acheiropoïtos. É musical, aérea, e quer dizer, literalmente, “que tem uma sombra leve”. É como se designa, em grego, aqueles que têm o dom do porvir, não os videntes, adivinhos e charlatões do tipo, mas os poetas cuja obra inventou ou pronunciou o futuro. Descobri essa palavra lendo um poema de Anghelos Sikelianos, e ela me impressionou pela beleza e limpidez de sua imagem: ter uma sombra leve, translúcida ou mesmo transparente. É uma bela homenagem aos poetas que marcam seu tempo. Não é – inconscientemente, sem dúvida – uma maneira de dizer também que esses poetas, pela intensidade de suas palavras e pelo brilho de sua intuição, prenunciam a leveza e a luz de dias futuros.

Três poemas de Bruno Prado

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Bruno Prado.

VEREDA

Tua sina te assina esse destino
Konstantinos Kaváfis

Buscar-se um oriente: mística, indomável fera.
Caminho raro — bravio retorno; esquecidiço…

Impulsivamente — faz-se do destino, o roteiro;
Outro sol — indefinida senda — ao impossível…

É ilusão volver — douto velho — tempo fugidio;
Sem mais — asa incinerada — a fuga é o regresso…

Do livro Líquen.

Sobe aos pés
o silêncio do esquecimento —
a palavra profana

uma fúria de solstício
a abrir com os dedos a eternidade;

uma luva sobre a jugular —

as pernas presas,
um mar de espinhos;

a trepadeira de unhas vermelhas
sobre a madrugada;

o sussurro pasmo da inocência
a lamber a face árdua —
repleta de tinta preta sobre o cabelo;

é preciso compreender a fala,
as palavras engolidas pelos lábios

a fúria quebrada no chão escaldante
de tecidos labiais —

é preciso subir as pedras,
lavrar o deserto,
escutar com os olhos
de espanto
a curvatura do silêncio:
fala do outro em espelho

Do livro sete e 8

Fall with me
Through the raving light

Hart Crane

DEGELO —

o sol sobre o peito

a luz

o doce esmero;
vermelhusco —

uma voz
a rir;

ramos,
belíssimos

a cerejeira

antes gelo; pedra —

aflora
agora

um prado

verdoengo;

um peito
esverdinhado

Do livro Fraturas.

Hell don't know my fury

Mais Fionna Apple, porque gosto de mulheres que se descabelam no palco e hoje é sexta-feira – dia de se descabelar.  Tenham um ótimo fim de semana.

A Mistake

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