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for: ‘August, 2009’

Imagem e poesia

Priscila Manhães Lerner

Priscila Manhães
Técnica Mista
85 x 105,5 cm

ENVOLVE
com a pele tua sede —

um dilúvio contínuo
canta a carne;

onde o olhar faz-se vento
e a ausência verde ave

perca-se
desordenadamente

absorto,
em sons de anseio

onde a pele rega a sede

e a carne pede água

Bruno Prado
Do livro Fraturas.

Perceber a poesia

É muito frequente ouvirmos às pessoas a eterna desculpa de que não percebem nada de poesia. Para um poeta, não deve haver nada mais frustrante. As pessoas podem afirmá-lo com sinceridade, ainda que nunca se tenham dado ao trabalho de, pelo menos, perceberem o que querem dizer com isso. Outras vezes afirmam-no como se estivessem furtando-se de uma apreciação menos subjetiva de um qualquer objeto poético. Há ainda quem o afirme movido por uma espécie de falsa modéstia. A questão deverá ser: o que é isso de perceber ou não perceber de poesia? E porque deverá a poesia ser assim tão excepcional que não nos permita uma opinião, por mais singela que seja? Se temos opiniões acerca de tudo e mais alguma coisa, por que não podemos nós ter da mesma forma opiniões sobre poesia? Não me parece que se trate de assunto assim tão excepcional. Julgo que o problema reside numa dificuldade, com razões mais ou menos psicossociológicas, em assumir perspectivas que, em todos os sentidos, só poderão ser consideradas relativas. O discurso poético, porque muito aberto a interpretações dissemelhantes e divergentes, deixa as pessoas naquilo a que chamo a angústia da contradição. Como se a contradição fosse um defeito! Não é. Aliás, foi um grande poeta quem afirmou que só há duas maneiras de se ter razão: calarmo-nos ou contradizermo-nos. Repare-se, falamos de ter razão. De sermos lógicos e coerentes. A contradição, cada vez mais me convenço disso, é meio caminho andado para a coerência. Parece que, no que respeita à discussão sobre poesia, a mais das vezes as pessoas preferem calar-se. A minha teoria é que preferem calar-se porque têm receio de assumir perspectivas que sabem ser tão vacilantes como gelatina. É um erro, a meu ver, fazer disso um entrave à manifestação do que sentimos. Gosto de falar das leituras que faço dos poemas que leio, sempre consciente de que a minha leitura é meramente subjetiva. É a minha leitura. Não me interessa descrever o que um poeta escreveu. Interessa-me entender porque me toca especialmente aquilo que ele escreveu. Isso, claro está, vive de uma série de condições que são diferentes de leitor para leitor, consoante a sua experiência de vida e as suas vivências. Em última instância, consoante a sua maturidade enquanto leitor. Julgo por isso pouco aceitável que alguém me diga que não percebe nada de poesia. Se é humano, se sente, se sente o que lê, é porque percebe alguma coisa de poesia. E essa alguma coisa que se sente é que é, para mim, o mais importante. Não me interessa, a priori, se um poeta é reconhecido ou não. Um poeta tem a importância que tem e a importância que tem não deve, no limite, advir de ser poeta, mas antes de ser homem. Quero com isto dizer que ao ler um livro de poesia a minha atitude é sempre, primeiramente, de me julgar a mim mesma enquanto leitora daquele livro de poesia, ou seja, de tentar definir em que é que o livro me despertou os sentidos, se os despertou, ou em que é que me foi, se o foi, completamente indiferente. Sabê-lo não me diz nada acerca da qualidade do mesmo, é certo. Nem é suposto que diga. Mas diz-me muito acerca do livro ele mesmo, pelo menos enquanto objeto capaz de merecer, mais que não seja, a minha indiferença. No fundo, ler poesia e tentar entender o que se leu é só mais uma maneira de nos conhecermos a nós próprios.

Do erotismo

Do erotismo

Técnica mista
88 x 67 cm
Agosto de 2009.

Vice Versa – Mario Benedetti

VICEVERSA

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.

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Leitura do poema pelo próprio Benedetti.

VICE VERSA

Tenho medo de te ver
Necessidade de te ver
Esperança de te ver
Inquietação de te ver

Tenho ganas de te encontrar
Preocupação de te encontrar
Certeza de te encontrar
Pobres dúvidas de te encontrar

Tenho urgência de te ouvir
Alegria de te ouvir
Boa sorte de te ouvir
E temores de te ouvir

Ou seja
Resumindo
Estou fodido
E radiante
Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E também
Vice versa

Mario Beneditti
Versão: Priscila Manhães

Contemplai teu amor, Pedra!

Medusa, Bernini
Medusa (detalhe), Bernini.

.
Medusa

Fall with me
Through the frigid stars:
Fall wiht me
Through the raving light: –
Sink
Where is no song
But only the white hair of aged winds.

Follow
Into utterness,
Into dizzying chaos, –
The eternal boiling chaos
Of my locks!

Behold thy lover, –
Stone!”

Medusa

Caia comigo
Através das estrelas frígidas:
Caia comigo
Através da luz violenta:
Afunde
Onde não há canção
Mas apenas os cabelos brancos de ventos ancestrais.

Siga
Dentro do absoluto
Dentro do caos vertiginoso, –
O eterno caos escaldante
Dos meus cachos!

Contemple teu amor, -
Pedra!

Hart Crane
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Versinhos sacanas

Fotografia erótica de 1910, feita por um fotógrafo anônimo francês
Fotografia erótica de 1910, feita por um fotógrafo anônimo francês.

“Eu te proponho um trato perfeito
que com justiça se justifica:
vem mamar leite do meu peito;
eu leite da sua pica.”

Priscila Manhães

“Deixa eu colocar bem fundo minha pica;
Se doer, beleza! Eu gozo; no cu não fica.”

Bruno Prado

Uma imagem e um poema

do livro Fraturas
Desenho meu e poema de Bruno Prado.

(clique na imagem para ver melhor)

Ganhar um pôr-do-sol

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- Nem parece São Paulo.

Chet Baker

You’d Be So Nice To Come Home To – Chet Baker in Tokyo (1987).

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