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for: ‘September, 2009’

IMAGENS DO INVISÍVEL

Incluir, numa eventual lista de incidentes em que como por azar se conjugam arte e morte e vida, episódios como os seguintes. Ao Davi de Michelangelo lhe quebraram o braço com uma pedrada. Através de um enfurecido detrator de Michelangelo, Golias se vingava. O cadáver de Goya foi desenterrado e mutilado: seu cadáver também, assim, pareceu grotesco. As esculturas do Aleijadinho, feitas em pedra porosa, agora parecem estar contaminadas pela sua enfermidade: a lepra segue retocando obras indefinidamente inacabadas: sobras: ruínas. Mallarmé, cuja poética se confunde com o suicídio, morreu de um espasmo na glote. Uma tradução psicossomática do Grande Livro, segundo Charles Mauron. Em 27 de agosto de 1938, sete anos depois de se representar num autoretrato vesgo do olho direito, vazaram o olho esquerdo de Victor Brauner acidentalmente. O enterro do dramaturgo cubano Virgilio Piñera foi quase uma uma peça sua: teatro do absurdo in extremis. Em 9 de setembro de 1985, durante a cobertura de um coup d´etat fracassado na Tailândia, morrem dois jornalistas da National Broadcasting Company, Neil Davis e Bill Latch. Davis, cinegrafista, foi atingido por tiros diante de sua própria câmera, que ao cair no chão, continuou filmando-o em posição vertical. A morte do jornalista se converteu assim numa notícia espetacular. Acaso objetivo, teleologia, hipertelia, jogo de dados que jamais abolirá o acaso.

Fragmento de ensaio do poeta cubano Octavio Armand,
tradução de Priscila Manhães Lerner.

Três poemas de August Stramm

Egon Schiele
Egon Schiele

.

CASA DE PRAZER

Luzes meretrizam nas janelas
A doença
Roja-se à porta
E conclama gemidos de mulher!
Almas femininas enrubescem risadas agudas!
Colos de mães bocejam filhos mortos!
O não-nascido
Fantasmambula
Volátil
Pelo espaço!
Medrosa
Num canto
Envergonrevolroída
Esconde-se
A espécie!

FREUDENHAUS

Lichte dirnen aus den Fenstern
die Seuche
spreitet an der Tür
und bietet Weiberstöhnen aus!
Frauenseelen schämen grelle Lache!
Mutterschöße gähnen Kindestod!
Ungeborenes
geistet
dünstelnd
durch die Räume!
Scheu
im Winkel
schamzerpört
verkriecht sich
das Geschlecht!
.

LUAR

Lívidos langues
Lábeis flexíveis
Gatos odoram
Flores tremem
Águas lambem
Ventos soluçam
A luz desnuda seios agudos
O tato geme em minha mão.

MONDSCHEIN

Bleich und müde
Schmieg und weich
Kater duften
Blüten graunen
Wasser schlecken
Winde schluchzen
Schein entblößt die zitzen Brüste
Fühlen stöhnt in meine Hand.

Tradução de Haroldo de Campos
.

INTIMIDADE

O ouvir fala
Brasas fremem
Esgares esguelham
Sangue suspira
Teu joelho dobra
Os rios ferventes
Lavam
Lava
No mar
E
Nossas almas
Mur
Muram
Em
Si.

HEIMLICHKEIT

Das Horchen spricht
Gluten klammen
Schauer schielen
Blut seufzt auf
Dein Knie lehnt still
Die heißen Ströme
Brausen
Heiß
Zu Meere
Und
Unsere Seelen
Rauschen
Ein
In
Sich.

Tradução de Augusto de Campos

Can I have some remedy?

Gosto de dançar como o Chris Robinson!

“A verdadeira poesia, quer se queira ou não, é metafísica
e é mesmo seu alcance metafísico, eu diria, seu grau de eficácia metafísica,
que lhe atribui todo seu verdadeiro valor.”

Antonin Artaud

No mesmo texto em que profere esta sentença – A Metafísica e a Encenação -, Artaud reivindica para o seu “teatro da crueldade” uma “linguagem concreta, destinada aos sentidos e independente do discurso.” O gosto de Artaud pela alienação, como meio por excelência no caminho dum acoplamento de paradigmas opostos. A palavra delírio ocupa na sua obra um lugar central, o lugar de decifração do inexprimível (no sentido de não poder ser dito por palavras). A crítica às formas coerentes e convencionais do teatro ocidental, leva-o a inclinar-se pela harmonia no caos do teatro oriental, uma harmonia só possível pela alienação total dos signos tradicionais. É a subordinação da expressividade a fórmulas lógicas estanques e deterministas, que Artaud tenta combater. Fórmulas essas que oprimem aquele que cria e condicionam todo um processo hermenêutico, definidor da relação entre obra e espectador. Esta opção pela combinação expressiva das variantes que compõem o vasto e complexo campo linguístico, tem na sua origem uma concepção de poesia bastante singular. “A poesia é anárquica”, diz Artaud, ao mesmo tempo que a condena a uma condição essencialmente metafísica. Não sei dizer se há contradição nesta organização de ideias. A haver, diga-se de passagem, só pode ser encarada como sinal de coerência. O mérito da teoria de Artaud reside, sobretudo, numa incorporação dos diversos planos da consciência que enformam a linguagem e, por consequência, deformam a poesia. A poesia, entendida enquanto ato expressivo exclusivamente humano, tem nos limites da linguagem os seus próprios limites. Nada de novo. A questão fundamental é saber até onde se podem esticar esses limites? Artaud partiu a corda, transcendendo-se na e pela linguagem até à tal alienação. O delírio, em poesia, é precisamente esse estado em que o leitor se integra no universo do poeta pela partilha da palavra. Há nisso qualquer coisa de verdadeiramente mágico e é por isso que faz sentido encarar a proposta da poesia, só em certo sentido, como uma proposta semelhante à dos rituais místicos. Não obstante, o risco duma conceitualização excessiva e, por isso, negadora do espanto que a natureza da própria poesia imprime, pode levar a que a tal “verdadeira poesia” de que fala Artaud se transforme, qual camaleão, em falsa poesia. Tenho, desta forma, por princípio que a poesia é, de fato, metafísica. Mas essa metafísica é a essência sem a qual o poema não acontece, ou seja, é linguagem. Neste sentido, toda a poesia, seja ela verdadeira ou falsa, porque é linguagem, é metafísica. Aquilo que dá valor da verdade ou da falsidade da poesia terá de ser outra coisa. Outra coisa que que é inexplicável por mais do que uma palavra. Mas que, em gente mais avisada, afirma todo o seu propósito numa única palavra: respiração.

Good Fortune – PJ Harvey

And I feel like some bird or paradise
My bad fortune slipping away
And I feel the innocence of a child
Everybody’s got something good to say

Imagem e Poesia #2

noite, priscila manhães lerner
O Espelho da Noite – Priscila Manhães Lerner
Óleo sobre tela
28 x 40 cm

Dois sóis noturnos;

o sonho,
a câmara de astros —

entrelaçados na vereda;
manchados —

loucos, na fenda,
no embate —

cego
caímos;

desnudo

o cristal azul da face

espelhado

Bruno Brado

Da vida

gettyimages


Às vezes
perigosamente
as veias coagulam
Não percebem:
viver é uma hemorragia calculada

Ana Hatherly

Fragmento do Frio – Paul Auster

gettyimages

FRAGMENTS FROM COLD

Because we go blind
in the day that goes out with us,
and because we have seen out breath
cloud
the mirror of air;
the eye of the air will open
on nothing but the word
we renounce: winter
will have been a place
of ripeness.

We who become the dead
of another life than ours.

FRAGMENTO DO FRIO

Porque seguimos cegos
pelo dia que segue conosco,
e porque vimos nossa respiração
nublar
espelho de ar,
o olho aéreo abrirá em
nada além da palavra
que renunciamos: inverno
terá sido um lugar
de perfeição.

Nós, tornados mortos de
outra vida que não a nossa.

Paul Auster
Tradução: Priscila Manhães Lerner

how the devil wants

how the devil wants

Óleo sobre tela
90 x 67 cm
(agosto de 2009)

Nos últimos dias as cores me apetecem mais que as palavras.

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