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"Eu dentro do templo chuto o tempo. Uma palavra me delineia VORAZ" Ana Cristina César

Um conto memorável

     – Essa de negro que sorri na pequena janela do bonde se parece com Mme. Lamort – disse.
     – Não é possível, pois em Paris não há bondes. Além disto, essa de negro no bonde não lembra em nada Mme. Lamort. Tudo ao contrário: é Mme. Lamort quem se parece com essa de negro. Resumindo: não só não há bondes em Paris como em toda a minha vida nunca vi Mme. Lamort, nem sequer em fotografia.
     – Você combina comigo – disse -, pois tampouco eu conheço Mme. Lamort.
     – Quem é você? Deveríamos nos apresentarmos.
     – Mme. Lamort – disse -. E você?
     – Mme. Lamort.
     – Seu nome não me deixa recordar alguma coisa – disse.
     – Trate de recordar antes que chegue o bonde.
     – Mas se acaba de dizer que não há bondes em Paris – disse.
     – Não havia quando disse, porém nunca se sabe o que vai passar.
     – Então esperemo-lo, já que o estamos esperando.

Alejandra Pizarnik
Tradução: Priscila Manhães Lerner

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