Foto postada no Facebook por Fabiano Calixto.
O Verde
O VERDE ACENDE a pupila de meu peito,
um vendaval,
borboletas de palavras
há sangue rubro,
há delírio,
uma constelação de lírios do instinto —
e transpiro,
soletro teu olhar —
adentro tua imagem
com o lirismo de meus dedos
desvaneço
anoiteço teu ouvido
sem os lábios —
o verdor das palavras;
um rio lírico no pensamento
Bruno Prado
Mais poemas aqui.
Noites brancas – Paul Auster
WHITE NIGHTS
No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.
Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.
Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body’s whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.
I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.
.
NOITES BRANCAS
Ninguém aqui,
e o corpo diz: o que quer seja dito
não é pra ser dito. Mas ninguém
é exatamente um corpo, e o que o corpo diz
é ouvido por ninguém
além de você.
Nevasca e noite. A repetição
de um assassinato
entre as árvores. A caneta
move-se através da terra: saberá em breve
o que vai ocorrer, e a mão que a segura
terá desaparecido.
De qualquer forma, ainda escreve.
E escreve: no início,
entre árvores, um corpo surgiu
vindo da noite. E escreve:
a brancura do corpo
é a cor da terra. E é terra,
e a terra escreve: tudo
é a cor do silêncio.
Não estou aqui, mesmo. Nunca disse
o que você disse
que eu havia dito. Ainda, o corpo é o espaço
onde nada expira. E a cada noite,
do silêncio das árvores, você sabe
que minha voz
caminha em direção a você.
Paul Auster
Tradução: Priscila Manhães Lerner
Lupa

(imagem: bruninho deitado em seu lugar preferido, minha cama.)
o olhar de água do gato me trespassa. ele vê colo, ele vê cria. sonhei que meu cabelo um dia acordou branco: uma geada, uma friagem súbita. o olho do gato é a porta para o sonho branco – espelho as pestanas pálidas, as pupilas translúcidas, ele me reconhece e finalmente pula.
no sentido da voragem

(Imagem: Miquel Arnal)
.
O SEXTO SENTIDO
Estamos aqui
Em estado de liberdade
Condicionada pela enorme filáucia do próximo
Que um poeta desconhecido confirmou
Quando disse:
O sexo existe
Vem da palavra six
Igual a sexto sentido
Que é feminino
E acrescentou:
A maçã
É para ser comida
Ana Hatherly
Portishead
Uma das minhas preferidas: Glory Box.
Um poema de Bruno Prado
QUANDO não há:
cala!
nem palavra, nem grafia
a mais pura
víscera de poesia —
sangue pelo tato;
embalo —
a vida estrita
é escrita pelo faro
Bruno Prado
Melodia de Outubro – Joseph Brodsky
OCTOBER TUNE
A stuffed quail
on the mantelpiece minds its tail.
The regular chirr of the old clock´s healing
in the twilight the rumpled helix.
Through the window, birch candles fail.
For the fourth day the sea hits the dike with its hard horizon.
Put aside the book, take your sewing kit;
patch my clothes without turning the light on:
golden hair
keeps the corner lit.
MELODIA DE OUTUBRO
Sobre a lareira, apenas
uma codorna empalhada, preocupada com as próprias penas.
O taque tique intacto do relógio regulando
no crepúsculo a hélice estropiada.
Através da janela, a luz nas bétulas sai de cena.
Por quatro dias o mar fustigou o dique com seu horizonte inflexível.
Põe de lado o livro, pegue suas agulhas de costura;
trate minhas roupas, que a luz permaneça impassível:
mechas douradas
acendem a esquina escura.
Joseph Brodsky
Tradução: Priscila Manhães Lerner


