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Hóspede

Observo da porta a poeira em suspensão,
a luz tardia nas cortinas, e todo o tempo
o fantasma está lá: o percebo

lâmina de nada em um piscar de olhos,
o ar que interroga uma página em branco
a música difícil dos ossos.

Tem ocupado seu lugar ao lado de outras sombras.
Uma falha no sangue, esboço tenaz.
Algo que não consigo isolar ainda que o intente.

É rápido e fugaz, sem pressa.
Simples como a noite é simples,
Quando a noite cai com sobriedade.

Há muito que as palavras deixaram de me ajudar
mas às vezes as chamo seguindo um velho hábito
Ele, então, brilha um instante, ondea e se dissipa,

e um punhado de escuridão toma seu lugar até desvanecer.
Antigas palavras, antigos hábitos …
Nem mesmo a noite é suficiente.

Ligeira e lenta como uma suspeita,
a luz da manhã atravessa o quarto
e tudo gira uma vez mais
na roda das aparições.

Priscila Manhães

um desenho

Influência: Milo Manara.

Confiram

O novo site de Bruno Prado Lopes:

www.brunopradolopes.com

Adrienne Rich

A Nona Sinfonia de Beethoven entendida como uma mensagem sexual

Um homem aterrorizado de impotência
ou infertilidade, sem saber a diferença
um homem que tenta dizer algo
uivando da climatérica
música, para entreter-se
alma isolada
gritando à Alegria do túnel de seu ego
uma música sem o fantasma
ou outra pessoa dentro, música
que tenta dizer algo que o homem
não quer que saia, quisera guarde ser pudesse
amordaçar e amarrar e chicotear com cordas de Alegria
onde tudo é silêncio
e o pulsar de um punho sangrento
sobre uma mesa lascada.

Adrienne Rich
Tradução: Priscila Manhães

Delícia!!

delícia

Gula-gula’s chocolate roll + french vanilla ice cream. Me acabo!!!

Come splendore che ritorna luce
nel riposo del cielo, l’orizzonte,
la musica è il silenzio della fiamma
che si pesa nel cuore, e schiude in sé
l’angelo ch’è metafora di te.

Desires

na
Fotografia: Nabuyoshi Araki.

…………….Ma Bohème

…………….Do olho-músculo
…………….amatório, daqui
…………….falas, daqui
…………….chamas –

ao vagido da boceta, bocaberta
ar-, arfante ante a TV vulgar,
desces,
ao sangue sem sacrifício,
à jugular ardente da pantera num táxi
desces,
à jungle brilhante das boates,
às florestas de ácido e acrílico
desces,
…………….desces
ao dragão de veias entupidas
no toalete, à girl de gengiva vermelha,
à gente fedendo a dinheiro
no saguão flutuante de negócios,
à boca de fumo e riso, às coxas
que no agora infræterno te entretêm,
ao ladrilho fosfóreo onde rolam glóbulos
brancos e verdes
à poça verde
sorriso verde
(EXIT no luminoso verde,
que lês:
Au Cabaret-Vert!)
e além

desces
e desces ainda
até àquela palavra afta
(em Desires) fotografada por Nabuyoshi Araki

e tornas

ao olho, músculo amatório,
………………………………………………de onde falas,
………………………………………………de onde chamas.

Age de Carvalho

Ofício

Escrevo com o tempo
com o fogo nos dedos
sobre o muro do dia.

Escrevo quando durmo e não me escutam
escrevo para despertar
escrevo dando voltas como um pássaro
escrevo no ar e na terra.

Escrevo porque não tenho outro lugar
porque meu amor me pergunta
escrevo para lhe fazer feliz
para admirá-lo diariamente.

Escrevo com os braços que encontro
escrevo para o mundo que não encontro.

Escrevo
para não me repetir.

Priscila Manhães Lerner

Chagall
Amoureux au Bouquet – Marc Chagall
.

Paradiseas manhans! riso dos céus
Sousândrade

Deixa tocar-te a íris dos olhos
com a força
que não se permite qualquer palavra

tocar-te o pulso,
o abismo convulso —

deixa dilatar a estrela inerte
que fenda tua boca,

dessatar o jasmim,

o nó de rio dos nossos lábios

deixa que se perca em nós
nossa mais vacilante aurora

deixa-te,
agora, agora e agora

Bruno Prado

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