Viajo com Dionísio
E antes,
na noite cega
apoiando meu corpo em mãos invisíveis,
caminhei, Terra, sobre teus sulcos grávidos.
Teu solo estava tenso
como a pele de boi num tambor.
E sob meus pés eu a sentia fremir
ao grande ritmo do mundo.
Como um cego de nascença
que, ao menor ruído,
ergue mecanicamente os olhos mortos para o céu
- como se os sons viessem sempre do alto –
e, assim que leva uma flauta aos lábios,
marca o ritmo com os pés e faz cantar
todas as vozes do mundo por sua voz,
a alma ofuscada de invisível luz,
assim, na noite cega,
caminho e amasso com os pés
Terra, teus grávidos sulcos.
Mas quando para nós, os companheiros do deus,
veio a hora da partida
- a hora em que na margem
a areia range sob os passos como uma voz viva,
em que as velas eclodem como lírios
nas planícies do extenso –
empurramos os navios até o mar
e de repente esqueci a terra.
E senti brotar em meu coração
uma luz nova, como a estrela da manhã.
Uma chuva fina riscava os sulcos do mar,
um rumor leve, um murmúrio de espuma
Eeevava-se de sobre as ondas,
o murmúrio da água nos dentes
de nossos remos.
As ilhas brancas ao longe confundiam seus promontórios
como pombas enlaçadas, e por vezes,
enquanto seguíamos as margens perfumadas de tomilho,
tartarugas gigantes nos olhavam passar
imóveis como rochedos de sombras.
E eu, nessa vertigem última da viagem,
aspirava com meus remos todo o seio do mar
e tecia minha rota sobre a trama das águas
e minha alma escoltava o barco
como, em seu sulco, uma gaivota obstinada.
Então meus companheiros,
na calma das coisas,
assim pediram aos deuses:
“Sim, agora que temos
os olhos queimados pelas vigílias e pelo sal,
nossas almas imóveis poderão reverberar
o horizonte na esteira do silêncio.
Como um peixe deixando a escuridão do abismo
para vir respirar à superfície imóvel
na hora em que se espalha o coral da aurora
e que escorre e torna a mergulhar e risca o oceano
como sílex de prata sob o fogo do sol,
assim, nós, agora,
penetramos no espaço imóvel de nossos deuses
e nosso corpo inteiro alerta
sente, até os dedos,
forte desejo crescer em nós
ao grande ritmo do mundo”.
Então de repente, eu Te avistei,
Tu, menino-deus, o Mestre secreto da vida!
Pois
sem que a proa faça espuma,
sem que a popa deixe esteira,
sem o menos vento em torno,
o barco deslizava sobre as águas…
quem nos conduzia, nu, à proa
estendido no horizonte,
quem conduzia, senão o deus?
E o ar tremia em volta dele
como em volta de um rochedo ardendo
ao meio-dia, a fornalha dos ventos
ou como em volta de um altar branco
o fogo das preces e das danças!
E eu, sentindo brotar em meu coração
o canto invisível do deus,
eu exclamei: Libertador!
Tu me tiraste do esquecimento,
fizeste-me beber a embriaguez das tempestades,
e me arrastas aos extremos do mundo
e me tornei, por tua ordem secreta,
como o pássaro do mar pousado entre duas voas
e que sobe e desce na espuma
ao grande ritmo do mundo!
Angelos Sikelianos, 1919.
Priscila Manhães, 2007.
E eu dedico a tradução como uma prece intensa e profana ao meu eterno Dionísio, o Gunaimades; sobretudo Purigites.