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for: ‘Bruno Prado’

Canto I

Uma árvore de nuvens cresce dentro da minha cabeça, um fruto azul, seco, de uma nostalgia inexplicada, não tenho passado, não tenho futuro, não tenho qualquer forma de tempo nos meus pés, folhas de gás pingam melancolia sobre a terra, uma árvore azul crescer dentro dos frutos gaseados, uma cabeça de árvore seca inexplicavelmente presente num futuro já passado, um deus, uma forma de deus, um açude onde morrem pela tarde gatos afogados em sacos de plástico, uma atuação de pessoas breves, uma performance, um dizer nas páginas brancas da poesia, uma poesia nas páginas amarelas dos lugares marcados, um eliot, um fumo, um deus que fuma sentado nas nuvens da minha cabeça, um deus que atua, um deus que lê nas páginas o branco das folhas amarelas, um deus que consegue dizer: pára, pára, não mais ande, não mais respire, pára de respirar, o teu coração que transpire a respiração das folhas secas, folhas secas coladas às páginas de livros velhos, com o peso branco do papel, dos rolos secos de papel, transtornados de branco e branco por todas as margens, por todos os galhos e galhofas de palavras, uma nuvem de livros, lírios e delírios, de desejos e promessas, de sussurros do divo, dos lábios do divino, rediviva na cabeça, nas espiras do azul, uma inexplicável asa de águas, que me encharca o abraço, me mina a brasa dos sonhos e abrasa a carne, o sangue lírio da carne nebulosa, de brumas alvas e rubras, das nuvens e fumaças, das difusas nuvens gaseadas dos galhos da minha árvore, um deus sentado entre os dedos, sentado nas nuvens da caneta, um deus equilibrista, equilibrando o seu pensamento na ponta da tampa da caneta, um deus lendário, sem cabeça, a lenda do deus sem cabeça, um deus sem cabeça que anda pelos telhados a espreitar-nos, nós que miamos como gatos arfando dentro de sacos de plástico atirados a um rio que já não existe, um rio de óleos e de lamas, um rio de pensamentos sem cabeça, um rio de memórias sem tempo, de tempo sem memória, um riacho sem chamas, os galhos na lama, a flor, um só vento, as pétalas, azuis-lazúli do tempo, um manto de relvas em rengas, ringues sem corpos, corpos sem lembrança, alfenas de anjos, só asas, sem crânios, no preamar, na preia-mar do deslize, sem céus senão lama, o frio da palavra contra o lete, que me invade ao meio, e me congela na pele da água, nas margens da cama, um sono, um sonho, um andar sorrateiro na noite da tarde, ao centro, na tarde da fala, lambendo a lembrança, lixando e andando, ao centro da beira, ao céu, ao parapeito, miados no olvido, sem sanha, miando na noite a algum deus, um deus que não canta…

Priscila Manhães e Bruno Prado

Três poemas de Bruno Prado

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Bruno Prado.

VEREDA

Tua sina te assina esse destino
Konstantinos Kaváfis

Buscar-se um oriente: mística, indomável fera.
Caminho raro — bravio retorno; esquecidiço…

Impulsivamente — faz-se do destino, o roteiro;
Outro sol — indefinida senda — ao impossível…

É ilusão volver — douto velho — tempo fugidio;
Sem mais — asa incinerada — a fuga é o regresso…

Do livro Líquen.

Sobe aos pés
o silêncio do esquecimento —
a palavra profana

uma fúria de solstício
a abrir com os dedos a eternidade;

uma luva sobre a jugular —

as pernas presas,
um mar de espinhos;

a trepadeira de unhas vermelhas
sobre a madrugada;

o sussurro pasmo da inocência
a lamber a face árdua —
repleta de tinta preta sobre o cabelo;

é preciso compreender a fala,
as palavras engolidas pelos lábios

a fúria quebrada no chão escaldante
de tecidos labiais —

é preciso subir as pedras,
lavrar o deserto,
escutar com os olhos
de espanto
a curvatura do silêncio:
fala do outro em espelho

Do livro sete e 8

Fall with me
Through the raving light

Hart Crane

DEGELO —

o sol sobre o peito

a luz

o doce esmero;
vermelhusco —

uma voz
a rir;

ramos,
belíssimos

a cerejeira

antes gelo; pedra —

aflora
agora

um prado

verdoengo;

um peito
esverdinhado

Do livro Fraturas.

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Henri Matisse
.

AS MÃOS tocam a tarde
na clavícula

escorre a navalha
sobre a pele — fere;

o espinho da palavra
perfura os dedos,

uma fala ferida
que beira o colapso,
escorre

o sangue,
sem desespero —

o estranhamento
a transitar — perdido

sorrir
naquilo que escrevo —

descer além;

lançar-se às chamas,
ao calor,

deitar o corpo
da linguagem

e largar-se

libertar-se de qualquer sentido
que não o delírio

Bruno Prado

Mais poemas do Bruno na Germina.

além das presas (o sentido)

O chamado

mear a noite, as presas
o rubor nas garras

ouvir ao instinto

lamber-se —
miar
co´s olhos

preencher a noite
rasgar; ranger; roer;

o sentido selênico;

auriverde,
esverdinhado

auscultar o olvido,
o silêncio da fala

além das presas (o sentido);

em margens opostas — dois felinos

Bruno Prado

Eros V

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Venere e Amore spiati da un satiro, 1528 – Corregio.

Em alta falesia — as mãos ao peito trespassado,
O mar glauco do olhar — proceloso e incauto.
A visão da queda — a quietude do deus alado;
Os pés acima — sobre-além — para o alto…

Bruno Prado

dois poemas de bruno prado

“O inferno é branco, tem um espelho dentro”
Herberto Helder

Há um movimento na contração dos astros;
um símbolo leonino lambendo o sangue do sol —

uma menina de olhos verdoengos brincando com a obscuridade,
no lancinante jogo de espelhos;

há todo um ímpeto sísmico a cortar com a lâmina o tempo,
rasgar as entranhas do instante — devorar a hora;
afogar a densidade da noite,
dos lábios,
da alvorada;

há uma busca irrealizável
a incutir a ânsia pela loucura, como incrustar a brasa ao peito,

ou lamber a víbora como se exultasse um diamante —
língua sobre presas

a queimar a juba dos pensamentos natos —

um sol — queima-se a si próprio;
ascende-se em extinção

__

A tocata
a murmurar nos teus lençóis de seda

e iluminar os braços do dia
defronte teus olhos amanhecidos

a brisa do sono
adormecida na boca —
o rio de lírios amarelos ao vento

a melodia escorrida por teus ouvidos
a olvidar os astros ocultos na luz do sol

o sono,
o som dourado de teus lábios,
o sorrir,
as janelas de pálpebras cerradas;
semi-cerradas —

a cerração da noite
a dizer de dois pulsos — dois felinos.
um novelo de garras. e agarros…

o ronronar do dia
sobre a lembrança da tarde —

a luz do sol parece tocar os lençóis

b.p.l2.f.
Poemas do livro inédito: sete e 8

um poema de bruno prado

Quiero mi libertad, mi amor humano;
 
a plenitude de seus poros luminosos,
a combustão de seu orgasmo
na ponta de minha língua —
 
atravessar o espelho de lágrimas
sob a tinta borrada de sentimentos;
 
um grito doloroso
na corola da cidade —
 
as peças vazias de carne,
o corpo umedecido de esmeraldas;
 
veias em transito —
o sangue resplandecente de palavras;
 
a erupção,
uma constelação de gemidos —
o suspiro no jardim do peito;
 
céus — seus suspiros 
 
erigir marcas de dente
na aureola de seu seio esquerdo;
 
manchá-la as costas alvas
com meus dedos de alicate — 
induzi-la à delicadeza da escuridão
noturnamente banhada por meu nome
 
inscrever meu toque —
 
marcá-la a fogo
com as iniciais de minha língua

b.p.l2.f.

bruno prado

Esboço para ninguém

o carnaval,

máscaras e garrafas
sobre a mesa —

entre o suspiro e o riso
a serpente

palavras ditas sem medo;
leveza e fúria —

E não há qualquer jogo,
apenas a palavra

palavra sobre a pele —
perversa

um espelho de si

misterioso

Bruno Prado

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