Em 1935 Séferis escreveu um poema intitulado Santorini, apresentado numa coletânea intutilada Gimnopédia. É um poema amargo e pessimista. Ferrugem e cinza – elementos e cores de Santorini – tornam-se símbolos de uma sobrevivência fantômica, de uma escória de fogo criador, de uma petrificação do tempo outrora vivo. A vida edificou-se ali sobre lava e cinza. Mas em toda a parte, até o fundo das ondas, nas ilhotas, permanece latente o fogo destruidor. E por toda parte, para o poeta, está latente no coração do homem o fogo das crateras da violência. Um dos poemas mais lindos que já li de Georgios Seféris.
Santorini
Debruça-te, se puderes, sobre o mar obscuro, esquecendo
o som das flautas sobre pés descalços
que percorrem teu sono na outra vida, devorada.
Escreve, se puderes, em tua última concha
o dia o nome o lugar
e a lança ao mar, que lá desapareça.
Encontramo-nos despidos sobre a pedra-pomes
mirando as ilhas nascidas das ondas
mirando as ilhas vermelhas afundarem
no sono, em nosso sono.
Encontramo-nos despidos, aqui.
cujo fiel pedia para a injustiça
Talão do vigor, querer sem falha, amor lúcido
desígnios que amadurecem ao sol do meio-dia,
via do destino ao som da jovem palma no ombro.
nesta terra que se partiu, que não resiste mais,
nesta terra outrora nossa,
ferrugem e cinza, as ilhas se devoram.
Altares destruídos
amigos esquecidos
folhas de palmeiras na lama.
Deixa, se puderes, tuas mãos viajarem
aqui, na ângulo do tempo com o barco
que tocou o horizonte.
Quando o dado rolou
quando a lança golpeou a couraça
quando o olho reconheceu o estrangeiro
e o amor secou
nas almas
quando você olha em volta e encontra
por toda parte pés ceifados
por toda parte mãos inertes
por toda parte olhos obscurecidos,
quando não resta mais nada a escolher,
nem mesmo a morte que buscava como própria
ouvindo o grito
o mesmo grito do lobo,
o que te cabe
deixa tuas mãos viajarem, se puderes,
desliga-te do tempo enganador
e afunda
como afunda aquele que carrega as grandes pedras.
Georgios Séferis
Tradução: Priscila Manhães Lerner
