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for: ‘Literatura’

a rua é das crianças

ninguém sabe andar na rua como as crianças. para elas
é sempre uma novidade, é uma constante festa transpor
umbrais. sair à rua é para elas muito mais do que sair à rua.
vão com o vento. não vão a nenhum sítio determinado, não se
defendem dos olhares das outras pessoas e nem sequer, em
dias escuros, a tempestade se reduz, como para a gente cres-
cida, a um obstáculo que se opõe ao guarda-chuva. abrem-se
à aragem. não projectam sobre as pedras, sobre as árvores,
sobre as outras pessoas que passam, cuidados que não têm.
vão com a mãe à loja, mas apesar disso vão sempre muito
mais longe. e nem sequer sabem que são a alegria de quem
as vê passar e desaparecer.

Ruy Belo

IMAGENS DO INVISÍVEL

Incluir, numa eventual lista de incidentes em que como por azar se conjugam arte e morte e vida, episódios como os seguintes. Ao Davi de Michelangelo lhe quebraram o braço com uma pedrada. Através de um enfurecido detrator de Michelangelo, Golias se vingava. O cadáver de Goya foi desenterrado e mutilado: seu cadáver também, assim, pareceu grotesco. As esculturas do Aleijadinho, feitas em pedra porosa, agora parecem estar contaminadas pela sua enfermidade: a lepra segue retocando obras indefinidamente inacabadas: sobras: ruínas. Mallarmé, cuja poética se confunde com o suicídio, morreu de um espasmo na glote. Uma tradução psicossomática do Grande Livro, segundo Charles Mauron. Em 27 de agosto de 1938, sete anos depois de se representar num autoretrato vesgo do olho direito, vazaram o olho esquerdo de Victor Brauner acidentalmente. O enterro do dramaturgo cubano Virgilio Piñera foi quase uma uma peça sua: teatro do absurdo in extremis. Em 9 de setembro de 1985, durante a cobertura de um coup d´etat fracassado na Tailândia, morrem dois jornalistas da National Broadcasting Company, Neil Davis e Bill Latch. Davis, cinegrafista, foi atingido por tiros diante de sua própria câmera, que ao cair no chão, continuou filmando-o em posição vertical. A morte do jornalista se converteu assim numa notícia espetacular. Acaso objetivo, teleologia, hipertelia, jogo de dados que jamais abolirá o acaso.

Fragmento de ensaio do poeta cubano Octavio Armand,
tradução de Priscila Manhães Lerner.

“A verdadeira poesia, quer se queira ou não, é metafísica
e é mesmo seu alcance metafísico, eu diria, seu grau de eficácia metafísica,
que lhe atribui todo seu verdadeiro valor.”

Antonin Artaud

No mesmo texto em que profere esta sentença – A Metafísica e a Encenação -, Artaud reivindica para o seu “teatro da crueldade” uma “linguagem concreta, destinada aos sentidos e independente do discurso.” O gosto de Artaud pela alienação, como meio por excelência no caminho dum acoplamento de paradigmas opostos. A palavra delírio ocupa na sua obra um lugar central, o lugar de decifração do inexprimível (no sentido de não poder ser dito por palavras). A crítica às formas coerentes e convencionais do teatro ocidental, leva-o a inclinar-se pela harmonia no caos do teatro oriental, uma harmonia só possível pela alienação total dos signos tradicionais. É a subordinação da expressividade a fórmulas lógicas estanques e deterministas, que Artaud tenta combater. Fórmulas essas que oprimem aquele que cria e condicionam todo um processo hermenêutico, definidor da relação entre obra e espectador. Esta opção pela combinação expressiva das variantes que compõem o vasto e complexo campo linguístico, tem na sua origem uma concepção de poesia bastante singular. “A poesia é anárquica”, diz Artaud, ao mesmo tempo que a condena a uma condição essencialmente metafísica. Não sei dizer se há contradição nesta organização de ideias. A haver, diga-se de passagem, só pode ser encarada como sinal de coerência. O mérito da teoria de Artaud reside, sobretudo, numa incorporação dos diversos planos da consciência que enformam a linguagem e, por consequência, deformam a poesia. A poesia, entendida enquanto ato expressivo exclusivamente humano, tem nos limites da linguagem os seus próprios limites. Nada de novo. A questão fundamental é saber até onde se podem esticar esses limites? Artaud partiu a corda, transcendendo-se na e pela linguagem até à tal alienação. O delírio, em poesia, é precisamente esse estado em que o leitor se integra no universo do poeta pela partilha da palavra. Há nisso qualquer coisa de verdadeiramente mágico e é por isso que faz sentido encarar a proposta da poesia, só em certo sentido, como uma proposta semelhante à dos rituais místicos. Não obstante, o risco duma conceitualização excessiva e, por isso, negadora do espanto que a natureza da própria poesia imprime, pode levar a que a tal “verdadeira poesia” de que fala Artaud se transforme, qual camaleão, em falsa poesia. Tenho, desta forma, por princípio que a poesia é, de fato, metafísica. Mas essa metafísica é a essência sem a qual o poema não acontece, ou seja, é linguagem. Neste sentido, toda a poesia, seja ela verdadeira ou falsa, porque é linguagem, é metafísica. Aquilo que dá valor da verdade ou da falsidade da poesia terá de ser outra coisa. Outra coisa que que é inexplicável por mais do que uma palavra. Mas que, em gente mais avisada, afirma todo o seu propósito numa única palavra: respiração.

Perceber a poesia

É muito frequente ouvirmos às pessoas a eterna desculpa de que não percebem nada de poesia. Para um poeta, não deve haver nada mais frustrante. As pessoas podem afirmá-lo com sinceridade, ainda que nunca se tenham dado ao trabalho de, pelo menos, perceberem o que querem dizer com isso. Outras vezes afirmam-no como se estivessem furtando-se de uma apreciação menos subjetiva de um qualquer objeto poético. Há ainda quem o afirme movido por uma espécie de falsa modéstia. A questão deverá ser: o que é isso de perceber ou não perceber de poesia? E porque deverá a poesia ser assim tão excepcional que não nos permita uma opinião, por mais singela que seja? Se temos opiniões acerca de tudo e mais alguma coisa, por que não podemos nós ter da mesma forma opiniões sobre poesia? Não me parece que se trate de assunto assim tão excepcional. Julgo que o problema reside numa dificuldade, com razões mais ou menos psicossociológicas, em assumir perspectivas que, em todos os sentidos, só poderão ser consideradas relativas. O discurso poético, porque muito aberto a interpretações dissemelhantes e divergentes, deixa as pessoas naquilo a que chamo a angústia da contradição. Como se a contradição fosse um defeito! Não é. Aliás, foi um grande poeta quem afirmou que só há duas maneiras de se ter razão: calarmo-nos ou contradizermo-nos. Repare-se, falamos de ter razão. De sermos lógicos e coerentes. A contradição, cada vez mais me convenço disso, é meio caminho andado para a coerência. Parece que, no que respeita à discussão sobre poesia, a mais das vezes as pessoas preferem calar-se. A minha teoria é que preferem calar-se porque têm receio de assumir perspectivas que sabem ser tão vacilantes como gelatina. É um erro, a meu ver, fazer disso um entrave à manifestação do que sentimos. Gosto de falar das leituras que faço dos poemas que leio, sempre consciente de que a minha leitura é meramente subjetiva. É a minha leitura. Não me interessa descrever o que um poeta escreveu. Interessa-me entender porque me toca especialmente aquilo que ele escreveu. Isso, claro está, vive de uma série de condições que são diferentes de leitor para leitor, consoante a sua experiência de vida e as suas vivências. Em última instância, consoante a sua maturidade enquanto leitor. Julgo por isso pouco aceitável que alguém me diga que não percebe nada de poesia. Se é humano, se sente, se sente o que lê, é porque percebe alguma coisa de poesia. E essa alguma coisa que se sente é que é, para mim, o mais importante. Não me interessa, a priori, se um poeta é reconhecido ou não. Um poeta tem a importância que tem e a importância que tem não deve, no limite, advir de ser poeta, mas antes de ser homem. Quero com isto dizer que ao ler um livro de poesia a minha atitude é sempre, primeiramente, de me julgar a mim mesma enquanto leitora daquele livro de poesia, ou seja, de tentar definir em que é que o livro me despertou os sentidos, se os despertou, ou em que é que me foi, se o foi, completamente indiferente. Sabê-lo não me diz nada acerca da qualidade do mesmo, é certo. Nem é suposto que diga. Mas diz-me muito acerca do livro ele mesmo, pelo menos enquanto objeto capaz de merecer, mais que não seja, a minha indiferença. No fundo, ler poesia e tentar entender o que se leu é só mais uma maneira de nos conhecermos a nós próprios.

Dionísio

“Aquele que concebe alguma coisa de vivo deve mergulhar nas pronfundezas primitivas onde moram as forças da vida. E ao erguer-se à superfície, tem nos olhos um brilho de loucura, porque, nessas profundezas, a morte se acha com o rosto encostado as da vida jubilosa.”

Dionysos – Otto, Walter Friedrich.

Voragem

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Paul Klee

“A sede da alma é ali onde o mundo interior e o mundo exterior se tocam. Onde eles se interpenetram – está ela em cada ponto da interpenetração.”

Novalis in Pólen fragmentos, diálogos, monólogo.

Da tradução

Uma tradução é, seja gramatical, ou modificadora, ou mítica. Traduções míticas são traduções no mais alto estilo. Expõem o caráter puro, perfeito e acabado da obra de arte individual. Não nos dão a obra de arte efetiva, mas o ideal dela. Ainda não existe, ao que creio, nenhum modelo inteiro dela. No espírito de muitas críticas e descrições de obras de are encontram-se porém claros traços. É preciso para isso uma cabeça, onde espírito poético e espírito filosófico se interpenetraram em sua inteira plenitude. A mitologia grega é em parte uma tal tradução de uma religião nacional. Também a madona moderna é um tal mito.
Traduções gramaticais são as traduções no sentido costumeiro. Exigem muita erudição – mas apenas aptidões discursivas.
As traduções modificadoras requerem, se devem ser genuínas, o mais alto espírito poético. Resvalam facilmente para o travesti – como o Homero em jambos de Bürguer – o Homero de Pope – as traduções francesas em seu conjunto. O verdadeiro tradutor dessa espécie tem na realidade de ser o próprio artista e poder dar a idéia de todo assim ou assim a seu bel-prazer – Tem de ser o poeta do poeta e assim poder fazê-lo falar segundo sua própria idéia e a do poeta ao mesmo tempo. Numa relação semelhante está o gênio da humanidade com cada homem individual. Não meramente livros, tudo pode ser traduzido destas três maneiras.

Novalis in Pólen fragmentos, diálogos, monólogo.

O Gato de Poe

The Black Cat, de Edgar Allan Poe na leitura de Diamanda Galas:

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O sarcasmo sútil

“O que é uma alma? É fácil defini-la negativamente: é precisamente aquilo que em nós se retrai quando ouvimos falar de fórmulas algébricas.”

Robert Musil, em O Homem sem Qualidades.

Ernesto Sábato

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(pintura de Sábato)

E, assim como o cão, ao sentir de repente mais próximo o mistério procurado, começa a cavar com fervor febril e quase alucinado (já alheio ao mundo exterior, alienado e demente, pensando e sentindo aquele único e poderoso mistério agora tão perto), assim ele acometia o corpo de Alejandra, tentava entrar nela até o fundo escuro do doloroso enigma: cavando, mordendo, penetrando freneticamente e tentando perceber cada vez mais distantes os fracos rumores da alma secreta e escondida daquela criatura tão sangrentamente próxima e tão desconsoladoramente distante. E, enquanto Martín a buscava, Alejandra talvez lutasse, em sua própria ilha, gritando palavras cifradas que para ele, Martín, eram ininteligíveis, e para ela, Alejandra, provavelmente inúteis, e para ambos, desesperadoras.
E depois, como num combate que deixa o campo coberto de cadáveres e não serviu para nada, ambos ficaram em silêncio.

Ernesto Sábato, em Sobre Heróis e Tumbas.

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