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for: ‘Poemas’

Hóspede

Observo da porta a poeira em suspensão,
a luz tardia nas cortinas, e todo o tempo
o fantasma está lá: o percebo

lâmina de nada em um piscar de olhos,
o ar que interroga uma página em branco
a música difícil dos ossos.

Tem ocupado seu lugar ao lado de outras sombras.
Uma falha no sangue, esboço tenaz.
Algo que não consigo isolar ainda que o intente.

É rápido e fugaz, sem pressa.
Simples como a noite é simples,
Quando a noite cai com sobriedade.

Há muito que as palavras deixaram de me ajudar
mas às vezes as chamo seguindo um velho hábito
Ele, então, brilha um instante, ondea e se dissipa,

e um punhado de escuridão toma seu lugar até desvanecer.
Antigas palavras, antigos hábitos …
Nem mesmo a noite é suficiente.

Ligeira e lenta como uma suspeita,
a luz da manhã atravessa o quarto
e tudo gira uma vez mais
na roda das aparições.

Priscila Manhães

Come splendore che ritorna luce
nel riposo del cielo, l’orizzonte,
la musica è il silenzio della fiamma
che si pesa nel cuore, e schiude in sé
l’angelo ch’è metafora di te.

Desires

na
Fotografia: Nabuyoshi Araki.

…………….Ma Bohème

…………….Do olho-músculo
…………….amatório, daqui
…………….falas, daqui
…………….chamas –

ao vagido da boceta, bocaberta
ar-, arfante ante a TV vulgar,
desces,
ao sangue sem sacrifício,
à jugular ardente da pantera num táxi
desces,
à jungle brilhante das boates,
às florestas de ácido e acrílico
desces,
…………….desces
ao dragão de veias entupidas
no toalete, à girl de gengiva vermelha,
à gente fedendo a dinheiro
no saguão flutuante de negócios,
à boca de fumo e riso, às coxas
que no agora infræterno te entretêm,
ao ladrilho fosfóreo onde rolam glóbulos
brancos e verdes
à poça verde
sorriso verde
(EXIT no luminoso verde,
que lês:
Au Cabaret-Vert!)
e além

desces
e desces ainda
até àquela palavra afta
(em Desires) fotografada por Nabuyoshi Araki

e tornas

ao olho, músculo amatório,
………………………………………………de onde falas,
………………………………………………de onde chamas.

Age de Carvalho

Ofício

Escrevo com o tempo
com o fogo nos dedos
sobre o muro do dia.

Escrevo quando durmo e não me escutam
escrevo para despertar
escrevo dando voltas como um pássaro
escrevo no ar e na terra.

Escrevo porque não tenho outro lugar
porque meu amor me pergunta
escrevo para lhe fazer feliz
para admirá-lo diariamente.

Escrevo com os braços que encontro
escrevo para o mundo que não encontro.

Escrevo
para não me repetir.

Priscila Manhães Lerner

Chagall
Amoureux au Bouquet – Marc Chagall
.

Paradiseas manhans! riso dos céus
Sousândrade

Deixa tocar-te a íris dos olhos
com a força
que não se permite qualquer palavra

tocar-te o pulso,
o abismo convulso —

deixa dilatar a estrela inerte
que fenda tua boca,

dessatar o jasmim,

o nó de rio dos nossos lábios

deixa que se perca em nós
nossa mais vacilante aurora

deixa-te,
agora, agora e agora

Bruno Prado

Pentesiléia
Detalhe de Battaglia delle Amazzoni, de Anselm Feuerbach.

Uma rainha amazonas: Pentesiléia. Entrou na guerra de Tróia por matar sem querer Hipólita, a irmã, numa caça… Aquiles entrou na guerra pra buscar de volta sua recompensa (amada) e, principalmente, vingar a morte de Patroclo (que usou sua armadura e foi morto por Heitor – por engano).

O encontro de ambos não ocorreu na Ilíada de Homero, que conta a guerra de Tróia, mas na Aethiopis (ou Etiópias) dado por autoria a Artino de Mileto, e que nos restaram uns dois ou três fragmentos: o que narram? O que ocorreu depois da guerra de Tróia (o final dela).

Em especial a ajuda que os troianos receberam dos etíopes, mas narra, também, o encontro dessa rainha amazonas com o guerreiro aqueu. Os povos glorificavam-nas, as amazonas, como aos deuses, semi-deuses e daemons…. Ele era conhecido por ser o maior dos guerreiros, o de pés ligeiros.

O fato: a questão das palavras é irrisória, Aquiles quase perdeu a batalha por uma aparente paixão que se deu naquele ato; oras, no meio de uma batalha: Sim!

O que não fala o poema: Moira-morte (o destino; sina; fardo) espreitava o guerreiro de-vida-curta, mas os oráculos diziam que só com Aquiles é possível derrotar Troia. Realmente o era.

A fratura: no instante antes do golpe final (o pré-golpear), cruzaram-se os olhos – dois guerreiros belos, invencíveis (um novo fardo): o golpe, a desfazer o fardo. A guerreira é abatida pelo derradeiro golpe.

O guerreiro observa a amazonas e chora! Naquela morte cheia de honras não houve vitória.


AQUILES FURISSOANTE
e Pentesiléia crina-bela,

ambos,
no olhuzir do embate;
o último combate

na fratura do instante:

ambos,

o não-arbítrio de Eros
à íra de Ares —

flechados;

fechados
no impossível entreato

o total transitório;
a ambrosia; o hiato —

afrontou a sina;
a divindade-morrediça —

e lancinou-se o indizível;
o transquerer —

o louro louro dentre sangue;
a lágrima ferina —

no furor,
o mais ungido fato

que será sempre nunca:

não-ato

Texto e poema de Bruno Prado.

Dois

Literatura

Nascida contra o branco:
sonha mares e terras,
velocidade e vórtices,
histórias com futuro

- o futuro impaciente
de um pôr-do-sol -

em sua ardósia
cabem curvas e retas,
o mapa dos fósseis
as pegadas de algum pássaro.

Porem a favor:
a linha dos mortos.
É a voz que convoca
para dançar novamente
junto a pedra
suas normas não são lei.
Gasta-se e recria-se.

Um código -
como o sonho e a água
começa no mistério
e não o nega.

Poética

Aspirar o silêncio
e opor-se ao domínio
da palavra flor
sem omitir
as quatro aparições
de seu nome.

Ardil da Saudade

“tua carne-ardil,
uma pequena vinha —
a voz-gemido,
o âmago do vinho”

Bruno Prado

trouxeste-me na pele
um peixe tatuado
nos olhos o verão
maça nos lábios

deixaste-me pássaros
cativos nas coxas
mas levaste-me a sombra
na tua trouxa

anjos e serpentes
com asas encarnadas
deixam nos espelhos
girassóis e vinho

e no âmago da carne
um verso que arde
uma voz que geme
o ardil da saudade

Fred Matos

Mais poemas do Fred, aqui: http://eumeuoutro.blogspot.com/

(MY OWN) IDIOTEQUE

O frio afaga a pele
Derrete gelo milenar
Os olhos se perdem
Engolem momentos. Disfarça.
(But here I’m allowed)
Detrás dos olhos
Outros olhos
Lábios, saliva, dentes
Um orvalho quente
As palavras se perdem
Nos silêncios covardes
Na noite fria
Por trás dos olhos
(I’m allowed)

Priscila Manhães Lerner

wine

Transplantar
o transfinito corpo desmedido
 
insuflar
toda a fúria  
em sal-suspiro —
 
tua carne-ardil,
uma pequena vinha —
 
a voz-gemido,
o âmago do vinho
 
um leopardo rubro,
em cântaros; vil felídeo —
 
a adentrar fundo:
 
os lábios ao sulco;
o sumo de teu vinho

Bruno Prado

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