Observo da porta a poeira em suspensão,
a luz tardia nas cortinas, e todo o tempo
o fantasma está lá: o percebo
lâmina de nada em um piscar de olhos,
o ar que interroga uma página em branco
a música difícil dos ossos.
Tem ocupado seu lugar ao lado de outras sombras.
Uma falha no sangue, esboço tenaz.
Algo que não consigo isolar ainda que o intente.
É rápido e fugaz, sem pressa.
Simples como a noite é simples,
Quando a noite cai com sobriedade.
Há muito que as palavras deixaram de me ajudar
mas às vezes as chamo seguindo um velho hábito
Ele, então, brilha um instante, ondea e se dissipa,
e um punhado de escuridão toma seu lugar até desvanecer.
Antigas palavras, antigos hábitos …
Nem mesmo a noite é suficiente.
Ligeira e lenta como uma suspeita,
a luz da manhã atravessa o quarto
e tudo gira uma vez mais
na roda das aparições.
Priscila Manhães



