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for: ‘Tradução’

Adrienne Rich

A Nona Sinfonia de Beethoven entendida como uma mensagem sexual

Um homem aterrorizado de impotência
ou infertilidade, sem saber a diferença
um homem que tenta dizer algo
uivando da climatérica
música, para entreter-se
alma isolada
gritando à Alegria do túnel de seu ego
uma música sem o fantasma
ou outra pessoa dentro, música
que tenta dizer algo que o homem
não quer que saia, quisera guarde ser pudesse
amordaçar e amarrar e chicotear com cordas de Alegria
onde tudo é silêncio
e o pulsar de um punho sangrento
sobre uma mesa lascada.

Adrienne Rich
Tradução: Priscila Manhães

juan gelman

comentário XI

este desejo de solitude com você / amor
que aprisiona a alma / amor
que alimenta e devora e estende a alma / além
de você a mim, que te leva

longe de mim / amor que vem que vai
dando dor de você/ compaixão de você / doçura
que banha meus pedaços / unidos
no prazer de você / onde cantam

como veremos os exílios
de você / país ou febre / ramo
revolvendo tristezas e deleites / amor
como um menino com os olhos cerrados

envolto em tua ousadia / ou livre
no cárcere de você / belo amor
dando seu amor para que amor conheça
por amor o amor.

juan gelman
tradução: priscila manhães

Hans Arp

BESTIÁRIO SEM NOME PRÓPRIO

o elefante enamorado do milímetro

o caracol está orgulhoso
debaixo do seu chapéu dourado
o couro está calmo
com um riso floreado
tem uma espingarda de gelatina

a águia tem gestos de vazio presumido
e seu mijo está cheio de relâmpagos

o leão tem um bigode
de puro gótico flamejante
e sapatos pálidos e expurgados
como um neo-soldado
depois de uma derrota de lua

a lagosta desce do mastro
troca a bengala por uma varinha
e com o pau volta a subir
pelo tronco da árvore

a mosca com um olhar ressonado
repousa o nariza num jacto de água

a vaca toma o caminho do pergaminho
que se perde numa libra de carne
cada pêlo da libra
pesa uma libra

a serpente salta com picada e picada
à roda das taças de amor
cheias de corações atravessados de flechas

o papillon empalhado
torna-se um papa-pilhão empapado
o papapilhão empapalhado
um grande papapilhão (avô-pilhão) grandempapalhado.

o rouxinol irmão da esfinge
rega os estômagos corações cérebros tripas
quer dizer lírios rosas cravos lilases

a pulga tem o pé direito
atrás da orelha esquerda
e a mão esquerda
na mão direita
e salta com o pé esquerdo
por cima da orelha direita.

Hans Arp
Tradução: Priscila Manhães Lerner

A árvore

The Tree of Life,Klimt
The Tree of Life, Stoclet Frieze, 1909 – Gustav Klimt.
.

A árvore

Esta árvore e seu frêmito
sombria floresta de apelos
de gritos
devora
o obscuro coração da noite.

Vinagre e leite, o céu, o mar
a massa espessa do firmamento,
tudo conspira no estremecimento
que habita o denso coração da sombra.

Um coração aberto, astro duro
que em dois se divide, e no céu se difunde,
o límpido céu fendido
no instante no sol nascente
- fazem todos o mesmo ruído
que a noite a árvore no centro do vento.

Antonin Artaud
Mudado para o português por Herberto Helder

Edmond Jabès

Toujours cette image…

Toujours cette image de la main et du front,
de l’écrit rendu à la pensée.

Tel l’oiseau dans le nid, ma tête est dans ma main.
L’arbre resterait à célébrer, si le désert n’était partout.

Immortels pour la mort. Le sable est notre part insensée d’héritage.
Puisse cette main où l’esprit s’est blotti, être pleine de semences.
Demain est un autre terme.

Saviez-vous que nos ongles autrefois furent des larmes?
Nous grattons les murs avec nos pleurs durcis comme nos cours-enfants.

Il ne peut y avoir de sauvetage
quand le sang a noyé le monde. Nous ne disposons que de nos bras pour rejoindre, à la nage, la mort

(Au-delà des mers, au-dessus des crêtes, minuscule planète non identifiée, mains urnes, rondes mains comblées, échappées à la pesanteur.)

Lorsque la mémoire nous sera rendue, l’amour connaîtra-t-il enfin son âge?

Bonheur d’un vieux secret partagé.
A l’univers s’accroche encore l’espérance du premier vocable; à la main, la page froissée.

Il n’y a de temps que pour l’éveil

Sempre esta imagem…

Sempre esta imagem da mão e da fronte
da escrita rendida ao pensamento.

Como o pássaro no ninho, minha cabeça está em minha mão.
A árvore continuaria a celebrar, se o deserto não estivesse em toda parte.

Imortais para a morte. A areia é nossa insensata parte da herança.
Pudera esta mão onde o espírito está pleno de sementes.
Amanhã é um outro termo.

Sabia que nossas unhas outrora foram lágrimas?
Rasgamos os muros com nosso pranto endurecido como nossos corações-crianças.

E não pode haver resgate
Quando o sangue tem afogado o mundo. Só dispomos de nossos braços para alcançar, a nado, a morte.

(Além dos mares, acima das cristas, minúsculos
planetas não identificados, mãos unidas, redondas mãos saciadas, soltas à gravidade)

Quando a memória nos for devolvida, conhecerá finalmente o amor sua idade?

Felicidade de um antigo segredo partilhado.
Ao universo se agarra a esperança do primeiro
Vocábulo, à mão, a página amassada.

Só há tempo para o despertar.

Edmond Jabès
Tradução: Priscila Manhães

Dois poemas de Eugène Guillevic

SE JE N’ÉCRIS PAS CE MATIN

Se je n’écris pas ce matin
Je n’en saurai pas davantage.

Je ne saurai rien
De ce que je peux être.

SE ESTA MANHÃ NÃO ESCREVER…

Se esta manhã não escrever
Nada a mais vou ficar sabendo

Não vou saber nada
Do que posso ser.

LORSQUE J’ÉCRIS NUAGE…

Lorsque j’écris nuage,
Le mot nuage.

C’est qu’il se passe quelque chose
Avec le nuage

Qu’entre noux deux
Se tisse un lien.

Que pour nous réunir
Il y a une histoire

Et quand l’histoire est fine
Le roman s’écrit dans le poème

QUANDO EU ESCREVO NUVEM…

Quando eu escrevo nuvem,
A palavra nuvem.

É que acontece alguma coisa
Com a nuvem,

Que entre nós dois
Se tece um laço,

Que para nos unir
Existe uma história.

E quando a história acaba
Escreve-se o romance no poema.

Eugène Guillevic
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Noites brancas – Paul Auster

WHITE NIGHTS

No one here,
and the body says: whatever is said
is not to be said. But no one
is a body as well, and what the body says
is heard by no one
but you.

Snowfall and night. The repetition
of a murder
among the trees. The pen
moves across the earth: it no longer knows
what will happen, and the hand that holds it
has disappeared.

Nevertheless, it writes.
It writes: in the beginning,
among the trees, a body came walking
from the night. It writes:
the body’s whiteness
is the color of earth. It is earth,
and the earth writes: everything
is the color of silence.

I am no longer here. I have never said
what you say
I have said. And yet, the body is a place
where nothing dies. And each night,
from the silence of the trees, you know
that my voice
comes walking toward you.

.
NOITES BRANCAS

Ninguém aqui,
e o corpo diz: o que quer seja dito
não é pra ser dito. Mas ninguém
é exatamente um corpo, e o que o corpo diz
é ouvido por ninguém
além de você.

Nevasca e noite. A repetição
de um assassinato
entre as árvores. A caneta
move-se através da terra: saberá em breve
o que vai ocorrer, e a mão que a segura
terá desaparecido.

De qualquer forma, ainda escreve.
E escreve: no início,
entre árvores, um corpo surgiu
vindo da noite. E escreve:
a brancura do corpo
é a cor da terra. E é terra,
e a terra escreve: tudo
é a cor do silêncio.

Não estou aqui, mesmo. Nunca disse
o que você disse
que eu havia dito. Ainda, o corpo é o espaço
onde nada expira. E a cada noite,
do silêncio das árvores, você sabe
que minha voz
caminha em direção a você.

Paul Auster
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Melodia de Outubro – Joseph Brodsky

OCTOBER TUNE

A stuffed quail
on the mantelpiece minds its tail.
The regular chirr of the old clock´s healing
in the twilight the rumpled helix.
Through the window, birch candles fail.

For the fourth day the sea hits the dike with its hard horizon.
Put aside the book, take your sewing kit;
patch my clothes without turning the light on:
golden hair
keeps the corner lit.

MELODIA DE OUTUBRO

Sobre a lareira, apenas
uma codorna empalhada, preocupada com as próprias penas.
O taque tique intacto do relógio regulando
no crepúsculo a hélice estropiada.
Através da janela, a luz nas bétulas sai de cena.

Por quatro dias o mar fustigou o dique com seu horizonte inflexível.
Põe de lado o livro, pegue suas agulhas de costura;
trate minhas roupas, que a luz permaneça impassível:
mechas douradas
acendem a esquina escura.

Joseph Brodsky
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Um poema de Keats

Bacchus et Ariane

.
TO MRS REYNOLD’S CAT

Cat! who hast passed thy grand climacteric,
How many mice and rats hast in thy days
Destroyed? — How many tit-bits stolen? Gaze
With those bright languid segments green, and prick

Those velvet ears — but pr´ythee do not stick
Thy latent talons in me — and upraise
Thy gentle mew — and tell me all thy frays
Of fish and mice, and rats and tender chick.

Nay, look not down, nor lick thy dainty wrists –
For all thy wheezy asthma, — and for all
Thy tail’s tip is nicked off, and though the fists

Of many a maid have given thee many a maul,
Still is that fur as soft as when the lists
In youth thou enter´dst on glass-bottled wall.

.
AO GATO DA SRA. REYNOLDS

Gato! que já passasse o grande crimatério,
Quantos ratos e camundongos já comeste?
Que petiscos roubastes? Ergue-me o olhar, reveste
De verde lânguido os teus olhos de mistério.

Alça as orelhas de veludo, mas não queiras
Fincar em mim as tuas úngulas latentes,
Faz teu meigo miado e conta as sorrateiras
Caças de ratos, peixes, pintos nos teus dentes.

Não baixes os teus olhos, nem lambas agora
As patas, apesar da asma e dos apuros
Da cauda cetinosa que te falta; e embora

As servas te enxotassem com castigos duros,
Teu pêlo ainda é suave e lembra como outrora
Te esquivavas dos cacos de vidro pelos muros.

John Keats
Tradução: Augusto de Campos

no sentido sádico

ENSAYO (Sid Vicious)

Vicious en el sentido de sádico. De pibe
apaleaba perros en el parque Slough.
Y Sid porque ningún careta
jamás le pondría ese nombre a su hijo.
Mi verdadero nombre fue John Slivkin.
Creo que Slivkin quiere decir
preso en eslavo.
Cuando tenía 15 aprendí a tocar el bajo
con tres dedos.
A los 19 usaba dos.
Ese año grabamos un disco llamado
La Gran Estafa del Rock and Roll
y pasé unos días en el Chelsea Hotel.
Al otro verano
toda la pendejada de Inglaterra
andaba usando esas remeras con la primera plana
de The Sun estampada en el medio.
Sid Vicious, decía el titular, is dead.

.
ENSAIO (Sid Vicious)

Vicious no sentido de sádico. Desde criança
empalava cães no parque Slough.
E Sid porque nenhum careta
jamais colocaria esse nome num filho.
Meu verdadeiro nome foi John Slivkin.
Acho que Slivkin quer dizer
preso em eslavo.
Quando tinha 15 aprendi a tocar baixo
com três dedos.
Aos 19 usava dois.
Nesse ano gravamos um disco chamado
A Grande Farsa do Rock and Roll
e passei uns dias no Chelsea Hotel.
No verão seguinte
toda a vagabundagem da Inglaterra
andava usando essas camisetas com a primeira página
do The Sun estampada no peito.
Sid Vicious, dizia a manchete, is dead.

Martín Gambarotta
Tradução: Priscila Manhães Lerner

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