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for: ‘Tradução’

Dois poemas de Vincenzo Cardarelli

[ISPIRAZIONE PER ME È INDIFFERENZA]

Ispirazione per me è indifferenza.
Poesia: salute e impassibilità.
Arte di tacere.
Come la tragedia è l’arte di mascherarsi.

[INSPIRAÇÃO PARA MIM É INDIFERENÇA]

Inspiração para mim é indiferença
Poesia: saúde e impassibilidade
Arte de silêncio
Como a tragédia é a arte de se mascarar.

ATTESA

Oggi che t’aspettavo non sei venuta.
E la tua assenza so quel che mi dice,
la tua assenza che tumultuava,
nel vuoto che hai lascito,
come una stella.
Dice che non vuoi amarmi.
Quale un estivo temporale
S’annuncia e poi s’allontana,
così ti sei negata alla mia sete.
L’amore, sul nascere, ha di questi improvvisi pentimenti.
Silenziosamente ci siamo intesi.

Amore, Amore, come sempre,
vorrei coprirti di fiori e d’insulti.

ESPERA

Hoje que te esperava não veio
E sei o que tua ausência me diz
Tua ausência que tumultuava,
No vazio que deixaste
Como uma estrela
Dizes que não queres me amar.
Como a tempestade estival
Se anuncia e logo se afasta,
Assim te negaste à minha sede.
O amor, ao nascer, tem destes
Improvisados arrependimentos
Silencisamente estamos acertados.

Amor, Amor, como sempre
Quero cobrir-te de flores e de insultos.

Vincenzo Cardarelli
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Don Juan, de Lord Byron.

Temperate I am – yet never had a temper;
Modest I am – yet with some slight assurance;
Changeable too – yet somehow idem semper;
Patient – but not enamoured of endurance;
Cheerful – but, sometimes, rather apt to whimper;
Mild – but at times a sort of Hercules furens;
So that I almost think that the same skin
For one without – has two or three within.

Lord Byron
Fragmento 11 do canto XVII.

.
Sou calmo – mas não sou calmo demais;
Modesto – mas com autoconfiança;
Paciente, sim – porém sem muita paz;
Mutável – sem que se note mudança;
Tímido – mas às vezes muito audaz;
Alegre, mas sem rir, porque isso cança;
Como se a minha minha pele, numa tez,
Tivesse, onde não tem, duas ou três.

Tradução Augusto de Campos

.
Genial não sou – mas, às vezes, genioso;
Modesto – mas com certa segurança;
Mutável, sim – mas voluntarioso;
Paciente – sem querer perseverança;
Jovial – mas à lamúria tendencioso;
De boa paz – mas propenso a desprezar.
Chego a pensar, se às vezes me concentro:
Sou dois por fora a cada um por dentro.

Tradução Décio Pignatari

IMAGENS DO INVISÍVEL

Incluir, numa eventual lista de incidentes em que como por azar se conjugam arte e morte e vida, episódios como os seguintes. Ao Davi de Michelangelo lhe quebraram o braço com uma pedrada. Através de um enfurecido detrator de Michelangelo, Golias se vingava. O cadáver de Goya foi desenterrado e mutilado: seu cadáver também, assim, pareceu grotesco. As esculturas do Aleijadinho, feitas em pedra porosa, agora parecem estar contaminadas pela sua enfermidade: a lepra segue retocando obras indefinidamente inacabadas: sobras: ruínas. Mallarmé, cuja poética se confunde com o suicídio, morreu de um espasmo na glote. Uma tradução psicossomática do Grande Livro, segundo Charles Mauron. Em 27 de agosto de 1938, sete anos depois de se representar num autoretrato vesgo do olho direito, vazaram o olho esquerdo de Victor Brauner acidentalmente. O enterro do dramaturgo cubano Virgilio Piñera foi quase uma uma peça sua: teatro do absurdo in extremis. Em 9 de setembro de 1985, durante a cobertura de um coup d´etat fracassado na Tailândia, morrem dois jornalistas da National Broadcasting Company, Neil Davis e Bill Latch. Davis, cinegrafista, foi atingido por tiros diante de sua própria câmera, que ao cair no chão, continuou filmando-o em posição vertical. A morte do jornalista se converteu assim numa notícia espetacular. Acaso objetivo, teleologia, hipertelia, jogo de dados que jamais abolirá o acaso.

Fragmento de ensaio do poeta cubano Octavio Armand,
tradução de Priscila Manhães Lerner.

Três poemas de August Stramm

Egon Schiele
Egon Schiele

.

CASA DE PRAZER

Luzes meretrizam nas janelas
A doença
Roja-se à porta
E conclama gemidos de mulher!
Almas femininas enrubescem risadas agudas!
Colos de mães bocejam filhos mortos!
O não-nascido
Fantasmambula
Volátil
Pelo espaço!
Medrosa
Num canto
Envergonrevolroída
Esconde-se
A espécie!

FREUDENHAUS

Lichte dirnen aus den Fenstern
die Seuche
spreitet an der Tür
und bietet Weiberstöhnen aus!
Frauenseelen schämen grelle Lache!
Mutterschöße gähnen Kindestod!
Ungeborenes
geistet
dünstelnd
durch die Räume!
Scheu
im Winkel
schamzerpört
verkriecht sich
das Geschlecht!
.

LUAR

Lívidos langues
Lábeis flexíveis
Gatos odoram
Flores tremem
Águas lambem
Ventos soluçam
A luz desnuda seios agudos
O tato geme em minha mão.

MONDSCHEIN

Bleich und müde
Schmieg und weich
Kater duften
Blüten graunen
Wasser schlecken
Winde schluchzen
Schein entblößt die zitzen Brüste
Fühlen stöhnt in meine Hand.

Tradução de Haroldo de Campos
.

INTIMIDADE

O ouvir fala
Brasas fremem
Esgares esguelham
Sangue suspira
Teu joelho dobra
Os rios ferventes
Lavam
Lava
No mar
E
Nossas almas
Mur
Muram
Em
Si.

HEIMLICHKEIT

Das Horchen spricht
Gluten klammen
Schauer schielen
Blut seufzt auf
Dein Knie lehnt still
Die heißen Ströme
Brausen
Heiß
Zu Meere
Und
Unsere Seelen
Rauschen
Ein
In
Sich.

Tradução de Augusto de Campos

Fragmento do Frio – Paul Auster

gettyimages

FRAGMENTS FROM COLD

Because we go blind
in the day that goes out with us,
and because we have seen out breath
cloud
the mirror of air;
the eye of the air will open
on nothing but the word
we renounce: winter
will have been a place
of ripeness.

We who become the dead
of another life than ours.

FRAGMENTO DO FRIO

Porque seguimos cegos
pelo dia que segue conosco,
e porque vimos nossa respiração
nublar
espelho de ar,
o olho aéreo abrirá em
nada além da palavra
que renunciamos: inverno
terá sido um lugar
de perfeição.

Nós, tornados mortos de
outra vida que não a nossa.

Paul Auster
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Um conto memorável

     – Essa de negro que sorri na pequena janela do bonde se parece com Mme. Lamort – disse.
     – Não é possível, pois em Paris não há bondes. Além disto, essa de negro no bonde não lembra em nada Mme. Lamort. Tudo ao contrário: é Mme. Lamort quem se parece com essa de negro. Resumindo: não só não há bondes em Paris como em toda a minha vida nunca vi Mme. Lamort, nem sequer em fotografia.
     – Você combina comigo – disse -, pois tampouco eu conheço Mme. Lamort.
     – Quem é você? Deveríamos nos apresentarmos.
     – Mme. Lamort – disse -. E você?
     – Mme. Lamort.
     – Seu nome não me deixa recordar alguma coisa – disse.
     – Trate de recordar antes que chegue o bonde.
     – Mas se acaba de dizer que não há bondes em Paris – disse.
     – Não havia quando disse, porém nunca se sabe o que vai passar.
     – Então esperemo-lo, já que o estamos esperando.

Alejandra Pizarnik
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Vice Versa – Mario Benedetti

VICEVERSA

Tengo miedo de verte
necesidad de verte
esperanza de verte
desazones de verte

tengo ganas de hallarte
preocupación de hallarte
certidumbre de hallarte
pobres dudas de hallarte

tengo urgencia de oírte
alegría de oírte
buena suerte de oírte
y temores de oírte

o sea
resumiendo
estoy jodido
y radiante
quizá más lo primero
que lo segundo
y también
viceversa.

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Leitura do poema pelo próprio Benedetti.

VICE VERSA

Tenho medo de te ver
Necessidade de te ver
Esperança de te ver
Inquietação de te ver

Tenho ganas de te encontrar
Preocupação de te encontrar
Certeza de te encontrar
Pobres dúvidas de te encontrar

Tenho urgência de te ouvir
Alegria de te ouvir
Boa sorte de te ouvir
E temores de te ouvir

Ou seja
Resumindo
Estou fodido
E radiante
Talvez mais o primeiro
Que o segundo
E também
Vice versa

Mario Beneditti
Versão: Priscila Manhães

Contemplai teu amor, Pedra!

Medusa, Bernini
Medusa (detalhe), Bernini.

.
Medusa

Fall with me
Through the frigid stars:
Fall wiht me
Through the raving light: –
Sink
Where is no song
But only the white hair of aged winds.

Follow
Into utterness,
Into dizzying chaos, –
The eternal boiling chaos
Of my locks!

Behold thy lover, –
Stone!”

Medusa

Caia comigo
Através das estrelas frígidas:
Caia comigo
Através da luz violenta:
Afunde
Onde não há canção
Mas apenas os cabelos brancos de ventos ancestrais.

Siga
Dentro do absoluto
Dentro do caos vertiginoso, –
O eterno caos escaldante
Dos meus cachos!

Contemple teu amor, -
Pedra!

Hart Crane
Tradução: Priscila Manhães Lerner

A Si Mesmo – Leopardi

A SE STESSO (Canti, XXVIII)

Or poserai per sempre,
Stanco mio cor. Perì l’inganno estremo,
Ch’eterno io mi credei. Perì. Ben sento,
In noi di cari inganni,
Non che la speme, il desiderio è spento.
Posa per sempre. Assai
Palpitasti. Non val cosa nessuna
I moti tuoi, né di sospiri è degna
La terra. Amaro e noia
La vita, altro mai nulla; e fango è il mondo.
T’acqueta omai. Dispera
L’ultima volta. Al gener nostro il fato
Non donò che il morire. Omai disprezza
Te, la natura, il brutto
Poter che, ascoso, a comun danno impera,
E l’infinita vanità del tutto.

A SI MESMO

Ora repousarás para sempre,
Meu exausto coração. Morreu o engano extremo
que eterno cri. Morreu. Bem sinto,
Em nós dos caros erros,
não só a esperança, o próprio desejo é extinto.
Repousa sempre. Muito
Palpitaste. Não valem coisa alguma
Teus movimentos, nem de suspiros é digna
A terra. Amargura e tédio
A vida, nada mais, e lama é o mundo.
Aquieta-te pois. Desespera
A vez derradeira. Ao nosso gênero o fado
Não brindou mais que o morrer. Enfim despreza
A natureza, o bruto
Poder que, oculto, o dano comum impera,
E a infinita vanidade de tudo.

Giacomo Leopardi
Tradução: Priscila Manhães Lerner

Poesia do cotidiano

AN AFTERNOON

As he writes, without looking at the sea,
he feels the tip of his pen begin to tremble.
The tide is going out across the shingle.
But it isn’t that. No,
it’s because at that moment she chooses
to walk into the room without any clothes on.
Drowsy, not even sure where she is
for a moment. She waves the hair from her forehead.
Sits on the toilet with her eyes closed,
head down. Legs sprawled. He sees her
through the doorway. Maybe
she’s remembering what happened that morning.
For after a time, she opens one eye and looks at him.
And sweetly smiles.

CERTA TARDE

Assim como escreve, sem olhar o mar,
ele sente a ponta de sua caneta começar a tremer.
A corrente atravessa as telhas.
Mas não assim. Não,
porque neste instante ela prefere
perambular pelo quarto sem roupa.
Sonolento, não muito certo de onde ela esteja
por um momento. Ela ondula o cabelo da testa.
Sentada no toalete com os olhos fechados,
cabisbaixa e as pernas esticadas. Ele a observa
através da porta entreaberta. Talvez
esteja recordando o que acontecera pela manhã.
Pouco depois, ela abre um olho e o vê.
E sorri docemente.

Raymond Carver
Tradução: Priscila Manhães Lerner

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